terça-feira, 15 de maio de 2012

Encontrado o novo Jeca Tatu

Mazzaropi
Imagem: Wikipedia

94 anos após sua publicação personagem polêmica criada por Monteiro Lobato permeia o imaginário nacional

Lucas Godoy

Publicado em 1918, Urupês é um dos mais famosos contos de Lobato. Crítica ácida ao romantismo, constrói um protagonista oposto ao índio forte e heróico. Para o autor o genuíno brasileiro é Jeca Tatu.

Urupês - 1918

Jeca pode ser frágil mas a literatura o multiplicou. É um esteriótipo que nos diverte. Mas ao romper os limites da caricatura é possível imaginar um Jeca contemporâneo? No Brasil emergente da economia estável e da moeda forte. País em que o analfabetismo não passa dos 10% e dizem estar caindo. O Jeca teria se tornado apenas uma relíquia engraçada?

Jeca Tatu, por Belmonte
Imagem: lobato.globo.com

Em um primeiro olhar, Jeca é o caboclo fraco e preguiçoso que vive na extrema pobreza. É o analfabeto que não sabe muito bem de onde veio e para onde vai. “Impenetrável ao progresso”, ele apenas sobrevive com as condições que lhe são dadas pela natureza. Admira o malandro por sua ascensão social mas não move uma palha para criticá-lo ou imitá-lo. É o retrato do sossego, a terra fértil das crendices populares mais improváveis.

Alheio ao Estado, “Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – "reculutamento".” E de certa forma, em sua época, não poderia ser diferente. Eram tempos em que quem podia, mandava. Para se ter ideia até 1907 não existiam leis brasileiras que tratavam da questão social. E a primeira, Lei Adolfo Gordo, foi aprovada apenas para expulsar estrangeiros indesejados. Não havia também um canal de comunicação nacional, os poucos jornais restringiam-se aos letrados.

Jeca Tatu, por Kurt Wiese
Imagem: lobato.globo.com

Criado na enxada, na lama e na submissão Jeca entendeu logo o seu lugar. Seu status não era uma opção. Estava intimamente ligado a sua condição social. E para tentar compreender como fica isso nos dias de hoje, vamos seguir na análise da alfabetização.

O modelo agrário adotado no país criou um verdadeiro abismo entre grandes proprietários e os trabalhadores do campo. Na zona rural o índice de analfabetismo, em pessoas que tem entre 15 e 59 anos, chega aos 20% de acordo o censo de 2011. E o então ministro da educação Fernando Haddad diz, em entrevista a folha de São Paulo, que o problema não é a oferta, mas sim a demanda. Ou seja, a falta de interesse. Ao analisar alguns programas de alfabetização tidos como modelo é impossível não notar falhas. No Paraná Alfabetizado, por exemplo, os educadores se inscrevem como voluntários e por isso não tem direitos trabalhistas. São ainda responsáveis por conseguir os alunos e o local para as aulas. Se conseguem, dentro do prazo, ganham por oito meses uma bolsa mensal que em 2009 não chegava aos 300 reais. Se já é difícil entender como esse modelo funciona na cidade, imagina só no meio rural?

Esse é só um exemplo. É claro que agora existem os serviços de assistência e com certidão de nascimento somos cidadãos. Além disso, somos pentacampeões, temos o César Cielo, a copa e as olimpíadas. Vivemos enfim em um Estado democrático em que o sufrágio universal aboliu, em tese, o voto de cabresto do Jeca. Mas nem tudo está bem, é óbvio, em 2011 os 10% mais ricos ficaram com 44,5% do rendimento total. Vivemos portanto no seio das contradições. Se o Jeca só precisava de polvilho e sapé para viver, hoje temos outras necessidades. Queremos e sonhamos ter educação, saúde, moradia, trabalho e dignidade. Ou pelo ou menos queremos dinheiro para comprar. Ao contrário do Jeca estamos com a informação e com poderosas ferramentas nas mãos. E o que fazemos para mudar?

É preciso buscar resposta para essas perguntas pois, como sugere Brecht, o pior analfabeto é o analfabeto político que não sabe o custo do feijão e odeia política. O Jeca não existiu e não existe de modo isolado. Ele já não é um grupo que pode ser discriminado com o dedo. A mudança será palpável se for coletiva. Enquanto observarmos a festa de uns poucos, preocupados apenas com o almoço de amanhã, dificilmente superaremos nossa condição. A de termos todos nós nos tornado Jeca.


Mazzaropi, em Jeca Tatu

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Texto produzido como exercício prático na disciplina de Jornalismo Impresso (Edição do Jornal Laboratório) na Universidade Estadual de Londrina, UEL, sob a orientação do professor José Maschio.

2 comentários:

Jorge Ramiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Ramiro disse...

Ele é um dos melhores personagens da história. Uma vez meu avô vendeu-le uma casinha para cachorro para o seu cão. Eu tenho a foto.