quarta-feira, 2 de novembro de 2011

No princípio era o mod..

Naqueles dias bandas jamaicanas de jazz, swing ou jive começaram a incluir em seu repertório musical arranjos de Rhythm and Blues inspirados nesses sons, resgatados das ondas hertzianas norte-americanas. Mais tarde, a influência do novo ritmo se acentuou, por intermédio de jovens jamaicanos que retomavam à ilha, depois de haver passado algum tempo realizando trabalhos eventuais nos Estados Unidos como mão-de-obra barata. Não traziam muito dinheiro, mas grandes quanitdades de discos que começaram a circular na Jamaica, sublinhando as novas influências musicais com os ritmos negros.


Eram os típicos sound systems ( caminhonetes dotadas de grandes alto-falantes e amplificadores, que faziam as vezes de "discotecas móveis" e trabalhavam geralmente ao ar livre), destacando os contratados dos produtores musicais Dodd e Duke Reid.

Em 1958 Dodd e Duke começaram a produzir suas próprias gravações, empregando músicos locais e fundando o primeiro estúdio de gravação da ilha: Federal Studios. Essas primeiras gravações eram muito influenciadas pela música tradicional da ilha: o calipso, o mento etc. Essa mistura de ritmos foi evoluindo até se converter no que se denominou o ska, embora seja difícil precisar quem foi o "inventor" desse estilo musical (muitas fontes apontam o falecido baixista dos Blues Flames, Cluet Johnson, mais conhecido como Cluet J.).


Também nessa época Duke Reid cria sua própria gravadora: Trojan Records; o nome se inspirava no apelido que tinha ganho ( Reid the Trojan ) ao dirigir seu sound system, um velho caminhão Trojan de 7 toneladas com a inscrição "Duke Reid the Trojan King of sounds" em sua lateral.

Nesse período, que se situa entre 1958 e 1963, e que poderia ser identificada como a primeira onda do Ska, as bandas jamaicanas, entre as quais sobressai The Skatalites, se encarregaram de popularizar o ska e de estendê-lo por toda a ilha. Esse ritmo tinha duas características principais: a forma muito intensa como era dançada e o fato de que seus principais adeptos eram os rude boys, ou os meninos rudes, que não eram muito aceitos pela sociedade devido a seus contatos com o baixo mundo, seus enfrentamentos com a polícia ( em conseqüência dos quais o Governo, como represália, ordenou a destruição de uns quarteirões chamados Shanty Town) e o consumo excessivo de maconha.


Afirmam os conhecedores que os rude boy é o primitivo skinhead, que se veste de forma elegante, imitando seus heróis das fitas de gângsters, como farão pouco depois os mods - aos quais me referirei agora -, antes de raspar suas cabeças e de entrar em contato com partidos políticos de extrema direita.

Em 1962 a Jamaica consegue sua independência da Grã-Bretanha e vive uma etapa de festa em que se desenvolveu musicalmente o rocksteady, proveniente do ska, e posteriormente o reggae ( a palavra reggae começou a ser utilizada graças à canção de Toots and the Maytals chamada "Do the reggay", que segundo explicação do próprio Toots se refere à regular people, a gente normal que anda a pé, a gente da rua, segundo o conceito de classe operária posteriormente adotada pelos skinheads.



Durante essa época, multidões de jovens jamaicanos viajam para a a Grã-bretanha, em busca de trabalho, e com eles levam sua música, com algumas canções já convertidas em hinos rude, como 007, de Desmond Dekker, que conseguiu alcançar os primeiros lugares das listas inglesas; além disso lançam o ska e o fenômeno rude boy por todo o continente(menos na espanha, onde então se dançava o "La chica ye-ye").

Aqueles imigrantes jamaicanos, que chegavam à inglaterra ao longo da década de 60, se encontram nas ruas inglesas com outros jovens amantes da música, pertencentes a outras tribos urbanas.

Nessa época prodigiosa a Londres cosmopolita abrigava em seu ventre uma grande variedade de correntes culturais: os rockers, hippies, teddy-boys, mods, hell-angels e outras tribos urbanas repartiam a fidelidade da juventude britânica quando se produziu um "cisma" dentre de uma delas: os mods.

Os mods haviam surgido em princípios da década entre os jovens da classe média londrina, obcecados pela roupa, a música e a violência. Uma expressão da "cultura" britânica habilmente retratada por Stanley Kubrick em A Laranja Mecânica, filme cultuado pelos skinheads de todo o mundo.


Começaram reunindo-se nos cafés do Soho, até que logo surgiram os primeiros clubes especificamente mods, como o Flamingo. Nesses locais escutavam jazz, ska, etc., principalmente à noite, já que eram jovens em sua maioria da baixa classe média, que trabalhavam durante o dia e assim passavam as noites dançando e bebendo. Nos fins de semana, era comum que grupos de mods procurassem as entradas no dorso de suas superdecoradas e ruidosas scooters em busca da costa sul da Inglaterra, especialmente Bringhton, onde freqüentemente protagonizavam encarniçadas batalhas contra os rockers.

Na verdade, e com grandes altos e baixos, o movimento mod se prolongou até hoje. Mas a crise dos meados dos 60 e a fragmentação dos mods determinaram um ponto de inflexão na história dessa tribo urbana. Daquela cisão nasceram os hard mods e o "espírito dos 69".


Aqueles jovens começaram a misturar sua música, o rockabilly e o ska, com o mundo do futebol, da violência e da cerveja. Os mais duros raspavam o crânio com o objetivo de expressar seu profundo desprezo contra as cabeleiras do movimento hippie. Logo aqueles pioneiros começaram a ser denominados hooligans, suporters ou skinheads.

Naqueles primeiros anos, enquanto alguns mods radicalizavam suas predileções, a juventude britânica recebeu uma importante onda de imigração chegada das Antilhas, o que lhes proporcionou fundamentalmente duas coisas: vizinhos negros tão violentos quanto eles e novos estilos de música nos salões de baile.

Também teve um papel importante a instável situação econômica e o êxito da Inglaterra no Mundial de Futebol de 1966, que levou muitos jovens a seguir suas equipes pelos diversos estádios em que foram disputados os jogos. Em seguida surgiram as torcidas ultras, fanatizadas pelas cores de seus times, e eclodiu a violência entre elas, surgindo assim os bootboys. As lutas entre seguidores de diferentes times ficaram famosas e esses enfrentamentos diários acabaram por mobilizar a polícia, os tribunais e a sociedade civil, que apertaram tanto o controle das partidas que acabaram por asfixiá-las. Muitos skins acabaram na prisão, outros deixaram o movimento e os mais veteranos se converteram em suedeheads, uma versão mais light que lhes permitiu sobreviver no anonimato. Da conjugação de todos esses fatores nasceram os "skinheads", palavra que foi usada pela primeira vez em 1969, já que até então esses grupos de rua recebiam vários nomes, como lemonheads, peanuts ( pelo ruído do motor das motos, como de amendoins fritando) ou simplesmente mods.

Sua indumentária mais característica consistia de botas militares - especialmente da marca Doc Martens - e suspensórios (como usavam os operários em oposição à burguesia britânica). E o mais importante, cabeças raspadas a zero ou um (daí o termo skin head, "cabeça raspada"). As jaquetas bomber, hoje famosas, só apareceram uns anos mais tarde.

..

Nos meados dos anos 70, na Inglatera, surge o movimento punk, e dentro dele ressurgem os skinheads. Esse ressurgimento se dá, por um lado, porque vários punks conseguem informações sobre o primitivo movimento skin de 69, e porque alguns sobreviventes do espírito dos anos 60 voltam a calçar botas e raspar os cabelos.

Esses primeiros skinheads eram um movimento musical apolítico. Tocavam Oi! Music, a versão punk mais radical..

..no começo dos setenta, ocorreu a primeira crise do petróleo, que trouxe vários problemas para a economia britânica, e por isso alguns desses priemiros skinheads começaram a agrupar-se em torno do National Front (partido nacional-revolucionário inglês). A guinada para a direita, a extrema direita, do movimento skin estava sendo gestada..

Protesto contra uma passeata da NF em 1979

Juntamente com os skinheads, alguns punks, como o cantor da The Exploited, começaram a se identificar completamente com o National Front. E foi esse exato momento em que nasceu o movimento skinhead nacional-socialista (NS), tal como hoje o conhecemos. Aqueles precursores do movimento skin-neonazi pretenderam se apossar do legado de "honra e fidelidade", das Hitler-Jugend, e o uniram com a cultura juvenil do começo dos setenta, nos bairros operários de Londres. Logo os skinheads deixaram de ser um movimento musical para se tornar um movimento juvenil nacional-socialista. Mas, sem sobra de dúvidas, a música foi e é o principal meio de propaganda dos skinheads. Em princípio a NF e outros partidos políticos de extrema direita procuraram afiliados (e votantes) dentro da cena punk londrina, talvez pelo fato de muitos grupos de música punk utilizavam suásticas ou cruzes gamadas em sua pitoresca estética antissistema ( como o controvertido Sid Vicius, dos Sex Pistols). Mas em realidade aqueles punks utilizavam suásticas e outros símbolos de propaganda nazi como uma forma de transgressão e provocação anti-sistema. Não havia nenhuma ideologia nacional-socialista por trás daqueles simbolos. No entanto, para o nascente movimento skinhead-NS, a música, a estética e sua atitude social eram parte de uma profunda convicção política de extrema direita.

Apoiadores da NF já na déc. de 90

Pouco a pouco o movimento skinhead-NS se consolida e adquire uma identidade própria, cada vez mais distante do movimento punk, embora a música, juntamente com o futebol, continuem sendo fatores decisivos na evolução histórica e sociológica do complexo mundo neonazi.


No princípio dos 80 surgiu um novo movimento constituído em torno do som streetpunk, com as bandas da chamada música Oi! pelo jornalista Gary Busshell, que o considerava uma união promissora entre a música do povo e a classe operária. Durante essa época a imprensa começava a atacar os skinheads por sua atitude agressiva e a referir-se à sua música, já conhecida popularmente como Oi!, como incitadora da violência. Devido a isso, algumas bandas, como Sham´69 e Angelic Upstarts, formam o RAR (Rock Against Racism, ou seja, rock anti-racista) para demonstrar à opinião pública que nem todos os "cabeças raspadas" eram nazis ou xenófobos. Essa nova corrente bastarda dentro do movimento skinhead terminaria se convertendo em toda uma forma de vida parecida mas antagônica à dos neonazis, que se consolidaria em Nova York de meados dos anos 80 sob a denominação de SHARP ( Skin Head Against the Racism Prejudice, que quer dizer cabeças raspadas contra os preconceitos raciais). Ou, o que é o mesmo, red-skins ou skins comunistas.

Paralelamente, e como em toda corrente cultural ou contracultural (e emprego o termo consciente de que escandalizarei o profano, ao aplicar esse qualitativo aos cabeças raspadas), o movimento skin foi se ampliando, se enriquecendo e se enchendo de matizes.

Além dos SHARP e red-skins, surgiram os skins-gay ou homoskins (homossexuais), as skingirls ou chelseas (noivas dos skinheads, que acabaram se convertendo em um movimento com identidade própria), WP-skinheads ("racialistas" ou racistas seguidores do White Power e de As 14 palavras, de David Lane); SxE-Skinheads (straight edge.. que repudiam drogas, álcool, tabaco e, muitas vezes, o consumo de carne); skins-hooligans (que antepõe sua paixão pelo futebol à componente política ou musical do movimento cultural..) etc. Confrontamo-nos portanto, com a evolução de um movimento cultural que durante o último terço do século XX algutinou milhares de jovens no mundo inteiro e promete desenvolver-se mais no século XXI. E na verdade, desde os anos 70, o movimento skinhead transpõe as fronteiras da Inglaterra para se estender primeiro pela velha Europa e depois pelo resto do mundo. Cada escândalo registrado nas manchetes da imprensa britânica; cada espancamento de um imigrante negro, muçulmano ou asiático comentado nos programas radiofônicos; cada imagem de seus crânios raspados aparecendo nas arquibancadas dos estádios não faziam mais do que aumentar sua fama. E assim começou a se tecer a lenda. Para a conservadora sociedade burguesa britânica, os skinheads eram os mais violentos, os mais duros, os mais irreverentes.. e portanto, para certos setores da juventude, eram os mais audazes, os mais intrépidos, os mais conseqüentes. Ou seja, os mais admirados.


Quando Margaret Tatcher, ante a avalanche de atos de vandalismo protagonizados pelos neonazis, declarou que ia "crucificar" todos os skinheads, a imagem de um skinhead pregado em uma cruz se converteu em uma das tatuagens mais solicitadas em Londres, e logo se transformaria em um símbolo universal que encontrei estampado em camisetas, chaveiros, pôsteres, e tatuado na pele de milhares de camaradas skins de todo o mundo.

Provavelmente, elementos tão blasfemos como a imagem do Cristo skin ou, o que é o mesmo, tão transgressores dos bons costumes e dos símbolos mais sacrosantos do sistema, fascinaram milhares de adolescentes. Embriagados com a força profanadora e radical daquele movimento, que se atrevia a enfrentar todos os representantes do Estado, as fileiras dos cabeças raspadas continuaram crescendo dia a dia.


Sua aparência, por outro lado, procurava potencializar essa imagem de dureza e violência, evoluindo até constituir um autêntico uniforme. Das calças Sta. Prest ou jeans Levis com a bainha dobrada para fora, camisetas e pólos Fred Perry e Lonsdale e suspensórios - herdadas dos mods -, a estética evoluiu durante os 80 para um aspecto mais paramilitar: jaquetas de aviador de bombardeiros ou Harrington, calças de combate e botas escuras Doc Martens, de bico de aço com cordões brancos (que podiam simbolizar a supremacia do branco sobre o negro). Também se mostram bem características suas abundantes tatuagens por todo o corpo (rostos de Hitler ou Rudolf Hess, runas, cruzes gramadas, suásticas etc.). E cetamente, a cabeça raspada a zero ou um.

Naturalmente, estou me referindo à estética do movimento skinhead-NS.. Mas é preciso dizer que há todo um código secreto entre as diferentes ramificações do submundo skinhead. Como uma linguagem em que cada elemento estético encerra um significado.

..sobretudo no início do movimento, detalhes como a cor dos cadarços se mostravam fundamentais. os cadarços brancos eram utilizados pelos skins-NS e WP, simbolizando a supremacia da raça branca sobre a negra. Os vermelhos também simbolizavam o orgulho branco e eram utilizados pelos membros da Frente Nacional Britânica e pelos fascistas.. e em algumas ocasiões pelos redskins. Os cadarços negros eram dos SHARP. Os verdes, dos SxE-skins. Os amarelos, dos anarco-skins e mestiços. Os rosados, dos homo-skins etc.

O mesmo acontecia com as jaquetas bomber. As negras eram usadas normalmente pelos homens, enquanto as vermelhas, pelas chelseas, as azuis pelos Sxe etc. Cabe registrar que essas jaquetas costumavam ser laranja por dentro e negras, azuis ou verdes na parte externa. Esse detalhe tem sido utilizado em muitas ocasiões por grupos skins rivais, um dos bandos usando as jaquetas pelo avesso, deixando assim a cor laranja para fora como sinal de provocação ao inimigo.

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Fonte: Diário de um skinhead: Um infiltrado no movimento neonazista - Antonio Salas; tradução Magda Lopes. - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006. Pág. 30 - 36.

E neste vídeo o brasileiro David Vega comenta sobre seu livro "Cadarços brancos":


Neste blog tem mais infos sobre esse livro: http://celtiberosedicoes.blogspot.com/

6 comentários:

Provos Brasil disse...

Excelente texto, muito bom mesmo!

Vou colocá-lo no blog!

Só não gosto deste tal de David Vega!

Lucas disse...

valeu! Então, vou ler o livro dele para saber melhor qual é.

Vou adicioná-los aqui tbm. []´s!

projetohistoria disse...

O texto é muito bom mesmo, o livro eu não conheço mas vou atras.

projetohistoria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
projetohistoria disse...

O texto é muito bom mesmo, trata de um tema difícil e complexo com uma simplicidade plausivel. Sobre o livro eu não cnheço mas vou atras.

Lucas disse...

valeu projeto história, mto legal seu blog tbm, vou adicionar aqui. []´s.