sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A lógica das armas biológicas


Os germes e a guerra são aliados antigos*. Há mais de dois milênios, os arqueiros citas mergulhavam as pontas das setas em estrume e cadáveres em decomposição, com a intenção de torná-las mais letais. No século XIV, os tártaros lançavam, por sobre as muralhas das cidades inimigas, cadáveres de pessoas que haviam morrido de peste. Durante a guerra franco-indiana, os soldados britânicos davam às tribos inimigas cobertores cheios de varíola. Durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães espalhavam mormo, uma doença de cavalos, entre os animais das cavalarias rivais. Na Segunda Guerra Mundial os japoneses lançaram pulgas infectadas com peste sobre cidades chinesas matando centenas ou até mesmo milhares de pessoas.

Ratos de Porão - Câncer - 1995

Versão, música da banda Hino Mortal.

Apesar destes ocasionais e terríveis êxitos, as armas biológicas nunca desempenharam um papel decisivo na guerra ou no terrorismo. O mesmo não se pode dizer das infecções não-intencionais. As conquistas territoriais dos europeus em todo o mundo tornaram-se possíveis, em grande parte, porque os povos indígenas não eram imunes às doenças endêmicas dos invasores, como a varíola, o sarampo, a gripe, o tifo e a peste. Mas a guerra intencional com armas biológicas foi relativamente rara, em especial nos tempos modernos, e tem sido amplamente condenada por ser considera inumana e eticamente reprovável. Apesar disso, no começo do século XX, o Canadá, a França, a Alemanha, o Japão, a União Soviética e o Reino Unido faziam parte do elevado número de países que pesquisavam** meios para uma guerra biológica.

Todos eles compreendiam que as armas biológicas eram fundamentalmente diferentes das bombas, das balas, das granadas e dos mísseis. Estas munições estavam vivas. Podiam se multiplicar exponencialmente e, se fossem altamente contagiosas, espalhar-se como um incêndio descontrolado. E o mais estranho de tudo, tendo em conta o estertor da guerra, era que agiam silenciosamente.

Antes das bombas atômicas, as armas biológicas eram consideradas o meio ideal de destruição em massa, porque deixavam intactos os edifícios. Sua principal desvantagem era a imprevisibilidade. Nos limitados confins de um campo de batalha, as armas seguiam os ditames da natureza e não dos comandos dos militares. Podiam matar um adversário ou ricochetear, devastando as fileiras do atacante e dos seus aliados. A melhor maneira de utilizá-las parecia ser contra um inimigo distante, reduzindo assim a possibilidade de um efeito bumerangue. ( Pág. 47-48 )

[ … ]

Sabe-se que o programa soviético de guerra bacteriológica teve início nas décadas de 1920 e 1930, e foi aumentando gradualmente, tornando-se um dos mais antigos e maiores da era moderna.. Naquela época, os Estados Unidos não dispunham de armas bacteriológicas. O governo totalitário de Stalin investiu grandes somas nessa atividade, embora suas perseguições tenham assassinado ou aprisionado muitos microbiólogos de renome. ( Pág. 63 )

Nos Estados Unidos as pesquisas tiveram início posterior porém foram aceleradas. “O general Lyman Lemnitzer, chefe do Estado-Maior do Exército descreveu a forma como as armas poderiam ser utilizadas:

O exército podia cobrir grandes áreas e inflingir pesadas baixas sem destruir edifícios nem objetos. O potencial destas armas, declarou, era especialmente elevado “em áreas ocupadas por forças inimigas onde estivessem presentes civis aliados”, uma situação que poderia ocorrer nas filipinas ou na Indochina. Lemnitzer deu um exemplo hipotético: se as forças comunistas tomassem uma região importante, os estados unidos poderiam reagir com um ataque do vírus da encefalite. Os aviões lançariam pequenas granadas ou pulverizariam o agente na área em discussão. Dois aviões bombardeiros de médio porte poderiam ser suficientes, disse. Em três dias – tempo para a ação infecciosa do agente -, os aviões transportariam para o local pára-quedistas americanos ou aliados, que ocupariam a região.”

[...]

“..as doenças poderiam ser tão incapacitantes quanto a gripe ou tão mortais como as bombas atômicas.” ( Pág. 66 )

Os gastos com armas biológicas aumentaram de forma dramática depois de John F. Kennedy chegar ao poder. .. Eles apoiaram vigorosamente um programa de choque***, destinado a preparar os germes para a guerra.

O trabalho com os vírus, que já era prioritário, foi redobrado, e empresas como General Eletric, Booz-Allen, Lockheed, Rand, Monsanto, Goodyear, General Dynamics, Aerojet General, North America Aviation, Litton Systems e até mesmo General Mills, que produziam os cereais Cheerios e Wheties, aderiram ao programa bacteriológico. ( Pág. 67-68 )

Com a crescente oposição da opinião pública à Guerra do Vietnã, o programa de ármas biológicas do governo norte americano tornou-se alvo dos protestos. ( Pág. 79 )

A partir de 1972, os Estados Unidos, a União Soviética e mais uma centena de nações assinaram a Convenção sobre Armas Biológicas e Tóxicas. O acordo proibia a posse de agentes biológicos mortais, exceto para pesquisa de medidas defensivas como vacinas, detectores e dispositivos de proteção. Foi o primeiro tratado mundial a interditar uma classe completa de armas.

Mas trata-se apenas de um compromisso, porque o tratado estava cheio de brechas. Não se estabeleciam limites [..] padrões [..] formas de consulta [..] mecanismos de imposição.

No entanto, todos os analistas, dentro ou fora do governo (dos EUA), consideraram que a supressão correspondia inteiramente aos interesses da América****. A lógica era simples: enquanto a guerra fosse dispendiosa e as ações militares exigissem grandes quantidades de equipamento avançado e armas nucleres, só as nações mais abastadas poderiam participar do jogo. As armas baratas de força devastadora nivelaram o campo dos jogos. E todos os especialistas estavam de acordo em afirmar que isso era algo que Washington tinha todo o interesse em evitar. ( Pág. 82-83 )

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Fonte: Miller J, Engelberg S. & Broad W. Germes: as armas biológicas e a guerra secreta da América. Rio de Janeiro: Ediouro; 2002.

Notas:
* Erhard Geissler & John Ellis van Courtland Moon, organizadores, Biological and toxin weapons: research, development and use from the Middle Ages to 1945, Oxford University Press e Stockholm International Peace Research Institute, Nova York, 1999, pp. 8-34; Sidell et al. Medical aspects, pp. 416-417
** Sidell et al. Medical aspects, p. 32
*** Regis, The Biology of Doom, pp. 185-186 (ver também Naomi Klein: "A doutrina do choque")
**** Wright, Preventing a Biological Arms Race, p. 40

Um comentário:

Lucas disse...

Documentos revelam que os EUA testaram armas químicas em seus cidadãos: http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/412-sa%C3%BAde/32373-documentos-revelam-que-eua-testou-armas-qu%C3%ADmicas-em-seus-cidad%C3%A3os.html