terça-feira, 22 de novembro de 2011

A geração mimeógrafo

A Geração Mimeógrafo, formada principalmente por jovens excluídos dos projetos editoriais das grandes editoras, ganhava o público no contato direto com o leitor, vendendo seus livretos, impressos de forma artesanal, em bares e portas de teatros. Para Nicolas Behr, um dos expoentes da Geração Mimeógrafo, esta nova forma de produção da obra literária surgiu como os não-alinhados, como uma opção dentro dos três blocos de poesia de vanguarda do início dos anos 1970: Poesia Concreta, Poesia Praxis e Poema Processo.

“Geração Mimeógrafo é, antes de mais nada, uma atitude. Fazemos parte da geração do atalho, vamos pelo desvio e burlamos todo o esquema editorial montado em cima do livro. Quando se edita um livro em mimeógrafo o autor tem condições de manter seu trabalho vivo. Um livro sempre aberto, sempre inacabado”[5], ressalta Nicolas Behr.

Além do tom quase sempre inflamado, irreverente e questionador da produção literária da Geração Mimeógrafo, os fatores que mais se sobressaem são o domínio sobre a produção, a independência de idéias e o poder de transformação da obra sem os limites ou conveniências editoriais. Assim como a imprensa alternativa voltada para o jornalismo, a Geração Mimeógrafo procurava ser autônoma e contava para isso com a cumplicidade do público.

Por outro lado, por seu caráter artesanal, ela abria a possibilidade de cada leitor se tornar porta-voz de suas próprias idéias. Essa Geração extrapolava os objetivos imediatos do discurso e se transformava numa atitude, onde o emissor se confundia com as idéias transmitidas, com o processo de produção e com o público com quem pretendia se comunicar.*


minha poesia não canta nada
– como haveria de cantar? –
berra todo nosso sufoco
como um doido na camisa-de-força.

vem do útero do ânus estuprado
do peito doente
da cirrose do fígado.

minha poesia é o pânico
a quarta dimensão terrível
da vida consumada no porto da barra pesada
das penitenciárias dos hospícios
do pervintin da maconha da cachaça
do povo na rua
– do povo de minha laia.

minha poesia é o hino
dos libertinos
q conspiram na noite dos generais...

Adauto de Souza Santos**

Fontes:
* Henrique Magalhães - O rebuliço apaixonante dos Fanzines. Ed. Universitária da UFPB. 2003. Págs. 16 e 17.
** Coletânea em PDF com 26 poetas ditos "marginais": http://coordenacaodolivro.blogspot.com/2011/08/hoje-e-sempre.html (pág. 251)
[5] Nicolas BEHR. VVAA. In 1º Encontro de Arte Brasileira Independente. São Paulo: janeiro 1981,p.4. (texto completo no site do Behr: imagem no início do post)

Outros materiais:
Entrevista com Chacal: http://www.domtotal.com/entrevistas/detalhes.php?entId=51
Wikipedia: A geração mimeógrafo

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