sábado, 5 de novembro de 2011

Documentário: Do it yourself - 20 anos de Hard Money

Página de abertura da matéria na revista Supernova: As duas primeiras imagens são do primeiro show da Hard Money no DCE da UEL em 1991. A imagem final é de uma das últimas apresentações da banda em 2009 no extinto Strettos Bar.

Após produzir esta matéria algo ficou em minha cabeça: “eu nasci no ano e lugar errado”. E foram muitas coisas que me fizeram pensar isso. O show da banda Hard Money em 2009, o lançamento do documentário “Do it yourself” em 2011, fazer amizades, ver as pessoas se divertindo e a empolgação nos relatos que ouvi sobre a década de 90 em Londrina. Mas como não posso voltar no tempo, convido vocês a conhecer ou lembrar um pouco desse período.

Surge o Punk em Londrina

Foi no final da década de 80 que começaram a chegar as primeiras informações sobre o movimento Punk na cidade. Apareceram também as primeiras fitas cassete de bandas como Garotos Podres e Ramones. O sociólogo, baterista das bandas Hard Money e Surface, e produtor do documentário, Luis Eduardo, o “Cientista”, como ficou conhecido, lembra que, embora em 1982 já havia pessoas com um visual mais rock, “mais sujo”, foi só por volta de 1985 que começou a ter contato com o som pesado do punk. “No início soou esquisito”, confessa. Só ao escutar mais bandas e ler fanzines que ele entendeu e se interessou de fato pelo movimento que deslancharia na cidade a partir de 1987. A letra, que se tornou clássica da banda Garotos Podres lançada em 1985 no LP “Mais do que nunca”, traduz bem o espírito punk inicial da época: “Não devemos temer os que detêm o poder... Os explorados precisam de se unir para o sistema destruir”. Conforme relata Cientista para estudantes da UEL em 1988: “visual, atitude e ideologia. Tem que ter tudo”.

1988 – Show da banda “Desordem e regresso”, cancelado no colégio Maxi após a direção se deparar com essas pessoas “estranhas” para a época. O show teve que ser realizado no local apertado do ensaio
A era dos fanzines
1989 – Primeiro fanziencontro, o encontro de fanzineiros, realizado em Londrina
Nesta época, alguns garotos começaram a fazer pixações e a produzir fanzines com mais frequência. Estes zines eram pequenas publicações produzidas principalmente com desenhos feitos à mão, com recortes e textos onde tentavam expor sua visão sobre temas diversos como religião, política, sociedade e música. Era uma opinião alternativa àquela recebida por seus pais, no colégio, na igreja ou na televisão. Na ausência da internet, os fanzineiros também trocavam seus materiais reproduzidos em fotocopiadoras por correio com pessoas de outras cidades. Assim, mais informações sobre bandas, o movimento Punk, campanhas de boicote ao consumo de produtos de origem animal e álcool, por exemplo, chegavam em Londrina.
Fanzine Cancro Cítrico, publicado entre 1988 e 1994 em Londrina
Faça você mesmo
Punks em Londrina na década de 80 e integrantes da banda “Desordem e regresso”
Um componente importante na cultura punk é o “faça você mesmo”. Ou seja, se você está insatisfeito com algo, deve ter “atitude”, criar alternativas e aprender na prática, com os erros. No início do Punk, décadas de 70 e 80, isso foi uma quebra de paradigma. A vontade de fazer, de contestar e tornar real seus sonhos deixava a preocupação com a técnica em segundo plano, o importante era se expressar e se divertir. Influenciados por bandas como Stooges e MC5, uma forma musical simples, barulhenta, com poucas notas e vocais gritados se encaixou perfeitamente a essa proposta. Assim surgiram muitas outras bandas.
E aqui não foi diferente. Para se ter ideia dessa efervescência, após uma semana da criação da banda londrinense “Desordem e regresso”, ela foi convidada para tocar em Curitiba. Lá, os novos punks encontraram uma cena muito maior e se animaram ainda mais para consolidar o movimento em Londrina: “Meninas curtindo punk rock, eu fiquei maravilhado: nossa mulher gosta!”, diz Luis Eduardo “Cientista”. Uma dica para quem quiser conhecer mais sobre o punk curitibano na década de 80 é o documentário “Punks na cidade”, lançado em 2003.
Violência
Na cultura punk, a violência, embora estigmatizada, nunca foi o tema central. O filme “Selvagens da noite” (The Warriors) de 1979, por exemplo, fez grande sucesso no Brasil e influenciou muitos jovens após ser exibido na televisão aberta por volta de 1983 e mostra brigas de gangues do começo ao fim com uma leve alusão ao que seria o visual punk. Além disso, a famosa reportagem de 15 minutos do “Fantástico” exibida no início deste mesmo ano também contribuiu para criar essa imagem violenta e degenerada do punk. Na ocasião, antes de gravar, a repórter chegou a pagar bebida aos garotos para deixá-los em situação o mais desconfortável possível perante as câmeras.
DCE UEL durante o Primeiro show da Hard Money em 1991
Mas foi aqui mesmo em Londrina, na década de 90, que essa imagem negativa ficou de lado. No cenário do rock “underground” composto de poucas pessoas mais ativas, todos se uniam e se divertiam. Os skatistas, os metaleiros e os punks frequentavam os mesmos espaços e, na maioria das vezes, mantinham boas relações. Para o tatuador Celso Batista, “em londrina não tinha divisão punk, metal, rivalidade, a gente era só amigo”. Nesse contexto de amizades e fanzines, também se formou o coletivo anarquista “Gralha negra” que, aos domingos na sede do DCE da UEL localizada na esquina das ruas Piauí com Hugo Cabral, promovia encontros libertários e discussões sobre os mais diversos temas.

A Hard Money

Demo lançada em 1993: uma das primeiras capas coloridas entre as bandas independentes brasileiras
Com experiências anteriores e uma vontade imensa de agitar e tocar Ramones, em uma época em que pouca gente conhecia essa banda na cidade, e também criar músicas próprias, em 1991, os amigos “Cientista” e Herber Hatada, que então tinham uma banda chamada “Merda” e cujas canções chamavam-se “Merda um”, “Merda dois” e assim por diante, convidaram Rei para integrar o grupo. A primeira formação da Hard Money se consolidou com a entrada de outro integrante, então com 15 anos, no baixo.
O primeiro show foi um exemplo da determinação que tinham em agitar a cidade. Após muitos nãos, conseguiram dois patrocínios e a ajuda financeira de um amigo. Espalharem cerca de mil cartazes pela cidade e conseguiram lotar o DCE da UEL. De lá para cá, quem participou dos shows da Hard Money relata uma energia incrível.

Para o músico e produtor de eventos (como o festival Rock Nova Cena), Marcelo Sapão, os “shows eram alucinantes de verdade, de você chegar e: meu, o que está acontecendo?”. Quem viveu a época relata tudo de maneira nostálgica. No meu caso, pude apenas acompanhar o show de comemoração dos 18 anos da banda em 2009, no já extinto bar Strettos. O que posso dizer? Primeiro, foi surpreendente constatar que a maioria do público tinha mais idade do que eu. Além disso, foi uma energia que não vou esquecer.. Lembro do Cientista dizendo “Um, dois, três, quatro”, e por mais de uma hora o público agitou muito ao som dos “Hardmoneys”. Ao final, a tradicional participação como vocalista da lenda londrinense do BMX e atual diretor do Departamento de Bicicross da Confederação Brasileira de Ciclismo, Fábio Polici (o “Hardcore”), foi apenas mais uma lembrança de quanta gente bacana passou por Londrina nos anos 90. Enfim, com certeza, um dos shows mais divertidos que eu já vi.
1994 – Terceira formação: Robson (guitarra), Rei (baixo e vocal), Bianca Pozzi (guitarra) e Cientista (bateria)
Embora hoje muitos pensem que a Hard Money foi apenas uma banda cover do Ramones, ela gravou 4 demos com músicas próprias e fortaleceu a cena do rock em Londrina. Além de fazer muitos shows fora, este fortalecimento permitiu que bandas de outras cidades viessem para cá. Dessa forma, difundiam aqui as ideias e o som que se fazia de forma independente em outros cantos do país. Muitas pessoas se dizem influenciadas diretamente por este período. É o caso do baterista da banda Búfalos D´água, Lucas Ricardo, que acompanhou a Hard Money desde seu primeiro show em 1991: “a influência foi grande né, do Hard Money, desde o começo”. E o fanzineiro Ricardo “Punk” lembra que “não é apenas uma banda cover, era uma banda que tinha atitude e tocava a cidade pra frente”.
O lançamento do DVD
Exposição de cartazes e fotos históricas durante o lançamento do documentário
Na tarde de domingo, 11 de setembro, me encontrei com Luis Eduardo “Cientista” para saber mais sobre o punk rock em Londrina e também sobre como foi produzir o documentário Hard Money. A conversa foi informal e se estendeu a tarde toda. Para se ter ideia, foram cerca de três anos para recuperar e selecionar vídeos, fotografias, gravações e fanzines da época. Depois, mais um ano e meio de edição e produção. O resultado foram 200 DVD´s do documentário que estão a venda por um preço simbólico de R$ 5 e uma festa de lançamento que começou neste mesmo domingo as 19h na Kinoarte e só acabou por volta da meia noite com a exibição do vídeo, algumas cervejas, histórias e muitas risadas.
Vale lembrar também que as quase duas horas do documentário contam com participações especiais de figuras como Rédson (banda Cólera) e Rodrigo Lima (baterista do Dead Fish), além de Marcelo Dominues, Paulão Rock´n Roll, entre outras figuras conhecidas e queridas na esfera do rock londrinense.
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* Essa matéria foi publicada na 5ª edição da revista Super Nova.
** As imagens foram cedidas pelo arquivo pessoal do Luis Eduardo "Cientista"
Mais informações:

2 comentários:

De Olho Na Tela disse...

Bons tempos. Nessa época eu tava porai "tocando Raul".

A história se agiganta, o presente reverencia o passado!

Lucas disse...

massa! eu queria estar alí no meio daqueles shows : )