sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A lógica das armas biológicas


Os germes e a guerra são aliados antigos*. Há mais de dois milênios, os arqueiros citas mergulhavam as pontas das setas em estrume e cadáveres em decomposição, com a intenção de torná-las mais letais. No século XIV, os tártaros lançavam, por sobre as muralhas das cidades inimigas, cadáveres de pessoas que haviam morrido de peste. Durante a guerra franco-indiana, os soldados britânicos davam às tribos inimigas cobertores cheios de varíola. Durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães espalhavam mormo, uma doença de cavalos, entre os animais das cavalarias rivais. Na Segunda Guerra Mundial os japoneses lançaram pulgas infectadas com peste sobre cidades chinesas matando centenas ou até mesmo milhares de pessoas.

Ratos de Porão - Câncer - 1995

Versão, música da banda Hino Mortal.

Apesar destes ocasionais e terríveis êxitos, as armas biológicas nunca desempenharam um papel decisivo na guerra ou no terrorismo. O mesmo não se pode dizer das infecções não-intencionais. As conquistas territoriais dos europeus em todo o mundo tornaram-se possíveis, em grande parte, porque os povos indígenas não eram imunes às doenças endêmicas dos invasores, como a varíola, o sarampo, a gripe, o tifo e a peste. Mas a guerra intencional com armas biológicas foi relativamente rara, em especial nos tempos modernos, e tem sido amplamente condenada por ser considera inumana e eticamente reprovável. Apesar disso, no começo do século XX, o Canadá, a França, a Alemanha, o Japão, a União Soviética e o Reino Unido faziam parte do elevado número de países que pesquisavam** meios para uma guerra biológica.

Todos eles compreendiam que as armas biológicas eram fundamentalmente diferentes das bombas, das balas, das granadas e dos mísseis. Estas munições estavam vivas. Podiam se multiplicar exponencialmente e, se fossem altamente contagiosas, espalhar-se como um incêndio descontrolado. E o mais estranho de tudo, tendo em conta o estertor da guerra, era que agiam silenciosamente.

Antes das bombas atômicas, as armas biológicas eram consideradas o meio ideal de destruição em massa, porque deixavam intactos os edifícios. Sua principal desvantagem era a imprevisibilidade. Nos limitados confins de um campo de batalha, as armas seguiam os ditames da natureza e não dos comandos dos militares. Podiam matar um adversário ou ricochetear, devastando as fileiras do atacante e dos seus aliados. A melhor maneira de utilizá-las parecia ser contra um inimigo distante, reduzindo assim a possibilidade de um efeito bumerangue. ( Pág. 47-48 )

[ … ]

Sabe-se que o programa soviético de guerra bacteriológica teve início nas décadas de 1920 e 1930, e foi aumentando gradualmente, tornando-se um dos mais antigos e maiores da era moderna.. Naquela época, os Estados Unidos não dispunham de armas bacteriológicas. O governo totalitário de Stalin investiu grandes somas nessa atividade, embora suas perseguições tenham assassinado ou aprisionado muitos microbiólogos de renome. ( Pág. 63 )

Nos Estados Unidos as pesquisas tiveram início posterior porém foram aceleradas. “O general Lyman Lemnitzer, chefe do Estado-Maior do Exército descreveu a forma como as armas poderiam ser utilizadas:

O exército podia cobrir grandes áreas e inflingir pesadas baixas sem destruir edifícios nem objetos. O potencial destas armas, declarou, era especialmente elevado “em áreas ocupadas por forças inimigas onde estivessem presentes civis aliados”, uma situação que poderia ocorrer nas filipinas ou na Indochina. Lemnitzer deu um exemplo hipotético: se as forças comunistas tomassem uma região importante, os estados unidos poderiam reagir com um ataque do vírus da encefalite. Os aviões lançariam pequenas granadas ou pulverizariam o agente na área em discussão. Dois aviões bombardeiros de médio porte poderiam ser suficientes, disse. Em três dias – tempo para a ação infecciosa do agente -, os aviões transportariam para o local pára-quedistas americanos ou aliados, que ocupariam a região.”

[...]

“..as doenças poderiam ser tão incapacitantes quanto a gripe ou tão mortais como as bombas atômicas.” ( Pág. 66 )

Os gastos com armas biológicas aumentaram de forma dramática depois de John F. Kennedy chegar ao poder. .. Eles apoiaram vigorosamente um programa de choque***, destinado a preparar os germes para a guerra.

O trabalho com os vírus, que já era prioritário, foi redobrado, e empresas como General Eletric, Booz-Allen, Lockheed, Rand, Monsanto, Goodyear, General Dynamics, Aerojet General, North America Aviation, Litton Systems e até mesmo General Mills, que produziam os cereais Cheerios e Wheties, aderiram ao programa bacteriológico. ( Pág. 67-68 )

Com a crescente oposição da opinião pública à Guerra do Vietnã, o programa de ármas biológicas do governo norte americano tornou-se alvo dos protestos. ( Pág. 79 )

A partir de 1972, os Estados Unidos, a União Soviética e mais uma centena de nações assinaram a Convenção sobre Armas Biológicas e Tóxicas. O acordo proibia a posse de agentes biológicos mortais, exceto para pesquisa de medidas defensivas como vacinas, detectores e dispositivos de proteção. Foi o primeiro tratado mundial a interditar uma classe completa de armas.

Mas trata-se apenas de um compromisso, porque o tratado estava cheio de brechas. Não se estabeleciam limites [..] padrões [..] formas de consulta [..] mecanismos de imposição.

No entanto, todos os analistas, dentro ou fora do governo (dos EUA), consideraram que a supressão correspondia inteiramente aos interesses da América****. A lógica era simples: enquanto a guerra fosse dispendiosa e as ações militares exigissem grandes quantidades de equipamento avançado e armas nucleres, só as nações mais abastadas poderiam participar do jogo. As armas baratas de força devastadora nivelaram o campo dos jogos. E todos os especialistas estavam de acordo em afirmar que isso era algo que Washington tinha todo o interesse em evitar. ( Pág. 82-83 )

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Fonte: Miller J, Engelberg S. & Broad W. Germes: as armas biológicas e a guerra secreta da América. Rio de Janeiro: Ediouro; 2002.

Notas:
* Erhard Geissler & John Ellis van Courtland Moon, organizadores, Biological and toxin weapons: research, development and use from the Middle Ages to 1945, Oxford University Press e Stockholm International Peace Research Institute, Nova York, 1999, pp. 8-34; Sidell et al. Medical aspects, pp. 416-417
** Sidell et al. Medical aspects, p. 32
*** Regis, The Biology of Doom, pp. 185-186 (ver também Naomi Klein: "A doutrina do choque")
**** Wright, Preventing a Biological Arms Race, p. 40

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A geração mimeógrafo

A Geração Mimeógrafo, formada principalmente por jovens excluídos dos projetos editoriais das grandes editoras, ganhava o público no contato direto com o leitor, vendendo seus livretos, impressos de forma artesanal, em bares e portas de teatros. Para Nicolas Behr, um dos expoentes da Geração Mimeógrafo, esta nova forma de produção da obra literária surgiu como os não-alinhados, como uma opção dentro dos três blocos de poesia de vanguarda do início dos anos 1970: Poesia Concreta, Poesia Praxis e Poema Processo.

“Geração Mimeógrafo é, antes de mais nada, uma atitude. Fazemos parte da geração do atalho, vamos pelo desvio e burlamos todo o esquema editorial montado em cima do livro. Quando se edita um livro em mimeógrafo o autor tem condições de manter seu trabalho vivo. Um livro sempre aberto, sempre inacabado”[5], ressalta Nicolas Behr.

Além do tom quase sempre inflamado, irreverente e questionador da produção literária da Geração Mimeógrafo, os fatores que mais se sobressaem são o domínio sobre a produção, a independência de idéias e o poder de transformação da obra sem os limites ou conveniências editoriais. Assim como a imprensa alternativa voltada para o jornalismo, a Geração Mimeógrafo procurava ser autônoma e contava para isso com a cumplicidade do público.

Por outro lado, por seu caráter artesanal, ela abria a possibilidade de cada leitor se tornar porta-voz de suas próprias idéias. Essa Geração extrapolava os objetivos imediatos do discurso e se transformava numa atitude, onde o emissor se confundia com as idéias transmitidas, com o processo de produção e com o público com quem pretendia se comunicar.*


minha poesia não canta nada
– como haveria de cantar? –
berra todo nosso sufoco
como um doido na camisa-de-força.

vem do útero do ânus estuprado
do peito doente
da cirrose do fígado.

minha poesia é o pânico
a quarta dimensão terrível
da vida consumada no porto da barra pesada
das penitenciárias dos hospícios
do pervintin da maconha da cachaça
do povo na rua
– do povo de minha laia.

minha poesia é o hino
dos libertinos
q conspiram na noite dos generais...

Adauto de Souza Santos**

Fontes:
* Henrique Magalhães - O rebuliço apaixonante dos Fanzines. Ed. Universitária da UFPB. 2003. Págs. 16 e 17.
** Coletânea em PDF com 26 poetas ditos "marginais": http://coordenacaodolivro.blogspot.com/2011/08/hoje-e-sempre.html (pág. 251)
[5] Nicolas BEHR. VVAA. In 1º Encontro de Arte Brasileira Independente. São Paulo: janeiro 1981,p.4. (texto completo no site do Behr: imagem no início do post)

Outros materiais:
Entrevista com Chacal: http://www.domtotal.com/entrevistas/detalhes.php?entId=51
Wikipedia: A geração mimeógrafo

Um tempo..


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa

domingo, 20 de novembro de 2011

Um primeiro olhar..

“O fanzine é uma mídia alternativa e com ele se cria todo um movimento cultural alternativo internacional; a expressão viva, concreta e paupável de que os movimentos sociais também educam” (Oliveira, pág. 78 - 79)


Livrinho pequeno, pouco mais que 80 páginas, mas com muita informação condensada sobre o movimento punk. Uma releitura do que diziam os fanzines publicados principalmente em São Paulo entre os anos de 1981 e 1984. Para quem interesse em fanzine, movimento punk, vale a pena conferir: Editora Achimé.

Referência: OLIVEIRA, Antonio Carlos. Os fanzines contam uma história sobre punks. Rio de Janeiro: Achiamé, 2006.

sábado, 19 de novembro de 2011

sonhar com quê?


Como é possível dormir?
se não há sono?
Como é possível viver?
se não há sonhos?

?

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Um addendum é esta antiga música da Ira!:

Sonhar com quê?



Quando escurece,
Os jovens se encontram,
Conversam sobre o dia,
Tristezas, bebidas, noites em vão,
Voltam para casa e não tentam fugir,
A tv está alta, não conseguem dormir.

Trabalho, cansaço, o fim do mês,
Revistas, modelos, sonhar com quê?

Quando amanhece,
Os jovens dispersam,
Conversam sobre a noite,
Saudades, momentos, horas sem fim,
Voltam para casa e não tentam fugir,
A comida está fria, não conseguem engolir.

Família, desprezo, rapaz ruim,
Novela, dinheiro, sonhar com quê?

Trabalho, cansaço, o fim do mês,
Revistas, modelos, sonhar com quê?

Família, desprezo, rapaz ruim,
Novela, dinheiro, sonhar com quê?

terça-feira, 15 de novembro de 2011

É difícil..


"Quando a razão não fala
Põe o coração na boca
E vive
Porque a hora certa de sentir
Não existe"
Fernanda Mello

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Os frutos da rebeldia..


Não há cova funda que sepulte
- a rasa covardia.
Não há túmulo que oculteos frutos da rebeldia.

Affonso Romano de Sant`Anna

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Imagem da Coluna Durruti.
Poesia enviada pela querida amiga M.M.

sábado, 5 de novembro de 2011

Documentário: Do it yourself - 20 anos de Hard Money

Página de abertura da matéria na revista Supernova: As duas primeiras imagens são do primeiro show da Hard Money no DCE da UEL em 1991. A imagem final é de uma das últimas apresentações da banda em 2009 no extinto Strettos Bar.

Após produzir esta matéria algo ficou em minha cabeça: “eu nasci no ano e lugar errado”. E foram muitas coisas que me fizeram pensar isso. O show da banda Hard Money em 2009, o lançamento do documentário “Do it yourself” em 2011, fazer amizades, ver as pessoas se divertindo e a empolgação nos relatos que ouvi sobre a década de 90 em Londrina. Mas como não posso voltar no tempo, convido vocês a conhecer ou lembrar um pouco desse período.

Surge o Punk em Londrina

Foi no final da década de 80 que começaram a chegar as primeiras informações sobre o movimento Punk na cidade. Apareceram também as primeiras fitas cassete de bandas como Garotos Podres e Ramones. O sociólogo, baterista das bandas Hard Money e Surface, e produtor do documentário, Luis Eduardo, o “Cientista”, como ficou conhecido, lembra que, embora em 1982 já havia pessoas com um visual mais rock, “mais sujo”, foi só por volta de 1985 que começou a ter contato com o som pesado do punk. “No início soou esquisito”, confessa. Só ao escutar mais bandas e ler fanzines que ele entendeu e se interessou de fato pelo movimento que deslancharia na cidade a partir de 1987. A letra, que se tornou clássica da banda Garotos Podres lançada em 1985 no LP “Mais do que nunca”, traduz bem o espírito punk inicial da época: “Não devemos temer os que detêm o poder... Os explorados precisam de se unir para o sistema destruir”. Conforme relata Cientista para estudantes da UEL em 1988: “visual, atitude e ideologia. Tem que ter tudo”.

1988 – Show da banda “Desordem e regresso”, cancelado no colégio Maxi após a direção se deparar com essas pessoas “estranhas” para a época. O show teve que ser realizado no local apertado do ensaio
A era dos fanzines
1989 – Primeiro fanziencontro, o encontro de fanzineiros, realizado em Londrina
Nesta época, alguns garotos começaram a fazer pixações e a produzir fanzines com mais frequência. Estes zines eram pequenas publicações produzidas principalmente com desenhos feitos à mão, com recortes e textos onde tentavam expor sua visão sobre temas diversos como religião, política, sociedade e música. Era uma opinião alternativa àquela recebida por seus pais, no colégio, na igreja ou na televisão. Na ausência da internet, os fanzineiros também trocavam seus materiais reproduzidos em fotocopiadoras por correio com pessoas de outras cidades. Assim, mais informações sobre bandas, o movimento Punk, campanhas de boicote ao consumo de produtos de origem animal e álcool, por exemplo, chegavam em Londrina.
Fanzine Cancro Cítrico, publicado entre 1988 e 1994 em Londrina
Faça você mesmo
Punks em Londrina na década de 80 e integrantes da banda “Desordem e regresso”
Um componente importante na cultura punk é o “faça você mesmo”. Ou seja, se você está insatisfeito com algo, deve ter “atitude”, criar alternativas e aprender na prática, com os erros. No início do Punk, décadas de 70 e 80, isso foi uma quebra de paradigma. A vontade de fazer, de contestar e tornar real seus sonhos deixava a preocupação com a técnica em segundo plano, o importante era se expressar e se divertir. Influenciados por bandas como Stooges e MC5, uma forma musical simples, barulhenta, com poucas notas e vocais gritados se encaixou perfeitamente a essa proposta. Assim surgiram muitas outras bandas.
E aqui não foi diferente. Para se ter ideia dessa efervescência, após uma semana da criação da banda londrinense “Desordem e regresso”, ela foi convidada para tocar em Curitiba. Lá, os novos punks encontraram uma cena muito maior e se animaram ainda mais para consolidar o movimento em Londrina: “Meninas curtindo punk rock, eu fiquei maravilhado: nossa mulher gosta!”, diz Luis Eduardo “Cientista”. Uma dica para quem quiser conhecer mais sobre o punk curitibano na década de 80 é o documentário “Punks na cidade”, lançado em 2003.
Violência
Na cultura punk, a violência, embora estigmatizada, nunca foi o tema central. O filme “Selvagens da noite” (The Warriors) de 1979, por exemplo, fez grande sucesso no Brasil e influenciou muitos jovens após ser exibido na televisão aberta por volta de 1983 e mostra brigas de gangues do começo ao fim com uma leve alusão ao que seria o visual punk. Além disso, a famosa reportagem de 15 minutos do “Fantástico” exibida no início deste mesmo ano também contribuiu para criar essa imagem violenta e degenerada do punk. Na ocasião, antes de gravar, a repórter chegou a pagar bebida aos garotos para deixá-los em situação o mais desconfortável possível perante as câmeras.
DCE UEL durante o Primeiro show da Hard Money em 1991
Mas foi aqui mesmo em Londrina, na década de 90, que essa imagem negativa ficou de lado. No cenário do rock “underground” composto de poucas pessoas mais ativas, todos se uniam e se divertiam. Os skatistas, os metaleiros e os punks frequentavam os mesmos espaços e, na maioria das vezes, mantinham boas relações. Para o tatuador Celso Batista, “em londrina não tinha divisão punk, metal, rivalidade, a gente era só amigo”. Nesse contexto de amizades e fanzines, também se formou o coletivo anarquista “Gralha negra” que, aos domingos na sede do DCE da UEL localizada na esquina das ruas Piauí com Hugo Cabral, promovia encontros libertários e discussões sobre os mais diversos temas.

A Hard Money

Demo lançada em 1993: uma das primeiras capas coloridas entre as bandas independentes brasileiras
Com experiências anteriores e uma vontade imensa de agitar e tocar Ramones, em uma época em que pouca gente conhecia essa banda na cidade, e também criar músicas próprias, em 1991, os amigos “Cientista” e Herber Hatada, que então tinham uma banda chamada “Merda” e cujas canções chamavam-se “Merda um”, “Merda dois” e assim por diante, convidaram Rei para integrar o grupo. A primeira formação da Hard Money se consolidou com a entrada de outro integrante, então com 15 anos, no baixo.
O primeiro show foi um exemplo da determinação que tinham em agitar a cidade. Após muitos nãos, conseguiram dois patrocínios e a ajuda financeira de um amigo. Espalharem cerca de mil cartazes pela cidade e conseguiram lotar o DCE da UEL. De lá para cá, quem participou dos shows da Hard Money relata uma energia incrível.

Para o músico e produtor de eventos (como o festival Rock Nova Cena), Marcelo Sapão, os “shows eram alucinantes de verdade, de você chegar e: meu, o que está acontecendo?”. Quem viveu a época relata tudo de maneira nostálgica. No meu caso, pude apenas acompanhar o show de comemoração dos 18 anos da banda em 2009, no já extinto bar Strettos. O que posso dizer? Primeiro, foi surpreendente constatar que a maioria do público tinha mais idade do que eu. Além disso, foi uma energia que não vou esquecer.. Lembro do Cientista dizendo “Um, dois, três, quatro”, e por mais de uma hora o público agitou muito ao som dos “Hardmoneys”. Ao final, a tradicional participação como vocalista da lenda londrinense do BMX e atual diretor do Departamento de Bicicross da Confederação Brasileira de Ciclismo, Fábio Polici (o “Hardcore”), foi apenas mais uma lembrança de quanta gente bacana passou por Londrina nos anos 90. Enfim, com certeza, um dos shows mais divertidos que eu já vi.
1994 – Terceira formação: Robson (guitarra), Rei (baixo e vocal), Bianca Pozzi (guitarra) e Cientista (bateria)
Embora hoje muitos pensem que a Hard Money foi apenas uma banda cover do Ramones, ela gravou 4 demos com músicas próprias e fortaleceu a cena do rock em Londrina. Além de fazer muitos shows fora, este fortalecimento permitiu que bandas de outras cidades viessem para cá. Dessa forma, difundiam aqui as ideias e o som que se fazia de forma independente em outros cantos do país. Muitas pessoas se dizem influenciadas diretamente por este período. É o caso do baterista da banda Búfalos D´água, Lucas Ricardo, que acompanhou a Hard Money desde seu primeiro show em 1991: “a influência foi grande né, do Hard Money, desde o começo”. E o fanzineiro Ricardo “Punk” lembra que “não é apenas uma banda cover, era uma banda que tinha atitude e tocava a cidade pra frente”.
O lançamento do DVD
Exposição de cartazes e fotos históricas durante o lançamento do documentário
Na tarde de domingo, 11 de setembro, me encontrei com Luis Eduardo “Cientista” para saber mais sobre o punk rock em Londrina e também sobre como foi produzir o documentário Hard Money. A conversa foi informal e se estendeu a tarde toda. Para se ter ideia, foram cerca de três anos para recuperar e selecionar vídeos, fotografias, gravações e fanzines da época. Depois, mais um ano e meio de edição e produção. O resultado foram 200 DVD´s do documentário que estão a venda por um preço simbólico de R$ 5 e uma festa de lançamento que começou neste mesmo domingo as 19h na Kinoarte e só acabou por volta da meia noite com a exibição do vídeo, algumas cervejas, histórias e muitas risadas.
Vale lembrar também que as quase duas horas do documentário contam com participações especiais de figuras como Rédson (banda Cólera) e Rodrigo Lima (baterista do Dead Fish), além de Marcelo Dominues, Paulão Rock´n Roll, entre outras figuras conhecidas e queridas na esfera do rock londrinense.
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* Essa matéria foi publicada na 5ª edição da revista Super Nova.
** As imagens foram cedidas pelo arquivo pessoal do Luis Eduardo "Cientista"
Mais informações:

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

No princípio era o mod..

Naqueles dias bandas jamaicanas de jazz, swing ou jive começaram a incluir em seu repertório musical arranjos de Rhythm and Blues inspirados nesses sons, resgatados das ondas hertzianas norte-americanas. Mais tarde, a influência do novo ritmo se acentuou, por intermédio de jovens jamaicanos que retomavam à ilha, depois de haver passado algum tempo realizando trabalhos eventuais nos Estados Unidos como mão-de-obra barata. Não traziam muito dinheiro, mas grandes quanitdades de discos que começaram a circular na Jamaica, sublinhando as novas influências musicais com os ritmos negros.


Eram os típicos sound systems ( caminhonetes dotadas de grandes alto-falantes e amplificadores, que faziam as vezes de "discotecas móveis" e trabalhavam geralmente ao ar livre), destacando os contratados dos produtores musicais Dodd e Duke Reid.

Em 1958 Dodd e Duke começaram a produzir suas próprias gravações, empregando músicos locais e fundando o primeiro estúdio de gravação da ilha: Federal Studios. Essas primeiras gravações eram muito influenciadas pela música tradicional da ilha: o calipso, o mento etc. Essa mistura de ritmos foi evoluindo até se converter no que se denominou o ska, embora seja difícil precisar quem foi o "inventor" desse estilo musical (muitas fontes apontam o falecido baixista dos Blues Flames, Cluet Johnson, mais conhecido como Cluet J.).


Também nessa época Duke Reid cria sua própria gravadora: Trojan Records; o nome se inspirava no apelido que tinha ganho ( Reid the Trojan ) ao dirigir seu sound system, um velho caminhão Trojan de 7 toneladas com a inscrição "Duke Reid the Trojan King of sounds" em sua lateral.

Nesse período, que se situa entre 1958 e 1963, e que poderia ser identificada como a primeira onda do Ska, as bandas jamaicanas, entre as quais sobressai The Skatalites, se encarregaram de popularizar o ska e de estendê-lo por toda a ilha. Esse ritmo tinha duas características principais: a forma muito intensa como era dançada e o fato de que seus principais adeptos eram os rude boys, ou os meninos rudes, que não eram muito aceitos pela sociedade devido a seus contatos com o baixo mundo, seus enfrentamentos com a polícia ( em conseqüência dos quais o Governo, como represália, ordenou a destruição de uns quarteirões chamados Shanty Town) e o consumo excessivo de maconha.


Afirmam os conhecedores que os rude boy é o primitivo skinhead, que se veste de forma elegante, imitando seus heróis das fitas de gângsters, como farão pouco depois os mods - aos quais me referirei agora -, antes de raspar suas cabeças e de entrar em contato com partidos políticos de extrema direita.

Em 1962 a Jamaica consegue sua independência da Grã-Bretanha e vive uma etapa de festa em que se desenvolveu musicalmente o rocksteady, proveniente do ska, e posteriormente o reggae ( a palavra reggae começou a ser utilizada graças à canção de Toots and the Maytals chamada "Do the reggay", que segundo explicação do próprio Toots se refere à regular people, a gente normal que anda a pé, a gente da rua, segundo o conceito de classe operária posteriormente adotada pelos skinheads.



Durante essa época, multidões de jovens jamaicanos viajam para a a Grã-bretanha, em busca de trabalho, e com eles levam sua música, com algumas canções já convertidas em hinos rude, como 007, de Desmond Dekker, que conseguiu alcançar os primeiros lugares das listas inglesas; além disso lançam o ska e o fenômeno rude boy por todo o continente(menos na espanha, onde então se dançava o "La chica ye-ye").

Aqueles imigrantes jamaicanos, que chegavam à inglaterra ao longo da década de 60, se encontram nas ruas inglesas com outros jovens amantes da música, pertencentes a outras tribos urbanas.

Nessa época prodigiosa a Londres cosmopolita abrigava em seu ventre uma grande variedade de correntes culturais: os rockers, hippies, teddy-boys, mods, hell-angels e outras tribos urbanas repartiam a fidelidade da juventude britânica quando se produziu um "cisma" dentre de uma delas: os mods.

Os mods haviam surgido em princípios da década entre os jovens da classe média londrina, obcecados pela roupa, a música e a violência. Uma expressão da "cultura" britânica habilmente retratada por Stanley Kubrick em A Laranja Mecânica, filme cultuado pelos skinheads de todo o mundo.


Começaram reunindo-se nos cafés do Soho, até que logo surgiram os primeiros clubes especificamente mods, como o Flamingo. Nesses locais escutavam jazz, ska, etc., principalmente à noite, já que eram jovens em sua maioria da baixa classe média, que trabalhavam durante o dia e assim passavam as noites dançando e bebendo. Nos fins de semana, era comum que grupos de mods procurassem as entradas no dorso de suas superdecoradas e ruidosas scooters em busca da costa sul da Inglaterra, especialmente Bringhton, onde freqüentemente protagonizavam encarniçadas batalhas contra os rockers.

Na verdade, e com grandes altos e baixos, o movimento mod se prolongou até hoje. Mas a crise dos meados dos 60 e a fragmentação dos mods determinaram um ponto de inflexão na história dessa tribo urbana. Daquela cisão nasceram os hard mods e o "espírito dos 69".


Aqueles jovens começaram a misturar sua música, o rockabilly e o ska, com o mundo do futebol, da violência e da cerveja. Os mais duros raspavam o crânio com o objetivo de expressar seu profundo desprezo contra as cabeleiras do movimento hippie. Logo aqueles pioneiros começaram a ser denominados hooligans, suporters ou skinheads.

Naqueles primeiros anos, enquanto alguns mods radicalizavam suas predileções, a juventude britânica recebeu uma importante onda de imigração chegada das Antilhas, o que lhes proporcionou fundamentalmente duas coisas: vizinhos negros tão violentos quanto eles e novos estilos de música nos salões de baile.

Também teve um papel importante a instável situação econômica e o êxito da Inglaterra no Mundial de Futebol de 1966, que levou muitos jovens a seguir suas equipes pelos diversos estádios em que foram disputados os jogos. Em seguida surgiram as torcidas ultras, fanatizadas pelas cores de seus times, e eclodiu a violência entre elas, surgindo assim os bootboys. As lutas entre seguidores de diferentes times ficaram famosas e esses enfrentamentos diários acabaram por mobilizar a polícia, os tribunais e a sociedade civil, que apertaram tanto o controle das partidas que acabaram por asfixiá-las. Muitos skins acabaram na prisão, outros deixaram o movimento e os mais veteranos se converteram em suedeheads, uma versão mais light que lhes permitiu sobreviver no anonimato. Da conjugação de todos esses fatores nasceram os "skinheads", palavra que foi usada pela primeira vez em 1969, já que até então esses grupos de rua recebiam vários nomes, como lemonheads, peanuts ( pelo ruído do motor das motos, como de amendoins fritando) ou simplesmente mods.

Sua indumentária mais característica consistia de botas militares - especialmente da marca Doc Martens - e suspensórios (como usavam os operários em oposição à burguesia britânica). E o mais importante, cabeças raspadas a zero ou um (daí o termo skin head, "cabeça raspada"). As jaquetas bomber, hoje famosas, só apareceram uns anos mais tarde.

..

Nos meados dos anos 70, na Inglatera, surge o movimento punk, e dentro dele ressurgem os skinheads. Esse ressurgimento se dá, por um lado, porque vários punks conseguem informações sobre o primitivo movimento skin de 69, e porque alguns sobreviventes do espírito dos anos 60 voltam a calçar botas e raspar os cabelos.

Esses primeiros skinheads eram um movimento musical apolítico. Tocavam Oi! Music, a versão punk mais radical..

..no começo dos setenta, ocorreu a primeira crise do petróleo, que trouxe vários problemas para a economia britânica, e por isso alguns desses priemiros skinheads começaram a agrupar-se em torno do National Front (partido nacional-revolucionário inglês). A guinada para a direita, a extrema direita, do movimento skin estava sendo gestada..

Protesto contra uma passeata da NF em 1979

Juntamente com os skinheads, alguns punks, como o cantor da The Exploited, começaram a se identificar completamente com o National Front. E foi esse exato momento em que nasceu o movimento skinhead nacional-socialista (NS), tal como hoje o conhecemos. Aqueles precursores do movimento skin-neonazi pretenderam se apossar do legado de "honra e fidelidade", das Hitler-Jugend, e o uniram com a cultura juvenil do começo dos setenta, nos bairros operários de Londres. Logo os skinheads deixaram de ser um movimento musical para se tornar um movimento juvenil nacional-socialista. Mas, sem sobra de dúvidas, a música foi e é o principal meio de propaganda dos skinheads. Em princípio a NF e outros partidos políticos de extrema direita procuraram afiliados (e votantes) dentro da cena punk londrina, talvez pelo fato de muitos grupos de música punk utilizavam suásticas ou cruzes gamadas em sua pitoresca estética antissistema ( como o controvertido Sid Vicius, dos Sex Pistols). Mas em realidade aqueles punks utilizavam suásticas e outros símbolos de propaganda nazi como uma forma de transgressão e provocação anti-sistema. Não havia nenhuma ideologia nacional-socialista por trás daqueles simbolos. No entanto, para o nascente movimento skinhead-NS, a música, a estética e sua atitude social eram parte de uma profunda convicção política de extrema direita.

Apoiadores da NF já na déc. de 90

Pouco a pouco o movimento skinhead-NS se consolida e adquire uma identidade própria, cada vez mais distante do movimento punk, embora a música, juntamente com o futebol, continuem sendo fatores decisivos na evolução histórica e sociológica do complexo mundo neonazi.


No princípio dos 80 surgiu um novo movimento constituído em torno do som streetpunk, com as bandas da chamada música Oi! pelo jornalista Gary Busshell, que o considerava uma união promissora entre a música do povo e a classe operária. Durante essa época a imprensa começava a atacar os skinheads por sua atitude agressiva e a referir-se à sua música, já conhecida popularmente como Oi!, como incitadora da violência. Devido a isso, algumas bandas, como Sham´69 e Angelic Upstarts, formam o RAR (Rock Against Racism, ou seja, rock anti-racista) para demonstrar à opinião pública que nem todos os "cabeças raspadas" eram nazis ou xenófobos. Essa nova corrente bastarda dentro do movimento skinhead terminaria se convertendo em toda uma forma de vida parecida mas antagônica à dos neonazis, que se consolidaria em Nova York de meados dos anos 80 sob a denominação de SHARP ( Skin Head Against the Racism Prejudice, que quer dizer cabeças raspadas contra os preconceitos raciais). Ou, o que é o mesmo, red-skins ou skins comunistas.

Paralelamente, e como em toda corrente cultural ou contracultural (e emprego o termo consciente de que escandalizarei o profano, ao aplicar esse qualitativo aos cabeças raspadas), o movimento skin foi se ampliando, se enriquecendo e se enchendo de matizes.

Além dos SHARP e red-skins, surgiram os skins-gay ou homoskins (homossexuais), as skingirls ou chelseas (noivas dos skinheads, que acabaram se convertendo em um movimento com identidade própria), WP-skinheads ("racialistas" ou racistas seguidores do White Power e de As 14 palavras, de David Lane); SxE-Skinheads (straight edge.. que repudiam drogas, álcool, tabaco e, muitas vezes, o consumo de carne); skins-hooligans (que antepõe sua paixão pelo futebol à componente política ou musical do movimento cultural..) etc. Confrontamo-nos portanto, com a evolução de um movimento cultural que durante o último terço do século XX algutinou milhares de jovens no mundo inteiro e promete desenvolver-se mais no século XXI. E na verdade, desde os anos 70, o movimento skinhead transpõe as fronteiras da Inglaterra para se estender primeiro pela velha Europa e depois pelo resto do mundo. Cada escândalo registrado nas manchetes da imprensa britânica; cada espancamento de um imigrante negro, muçulmano ou asiático comentado nos programas radiofônicos; cada imagem de seus crânios raspados aparecendo nas arquibancadas dos estádios não faziam mais do que aumentar sua fama. E assim começou a se tecer a lenda. Para a conservadora sociedade burguesa britânica, os skinheads eram os mais violentos, os mais duros, os mais irreverentes.. e portanto, para certos setores da juventude, eram os mais audazes, os mais intrépidos, os mais conseqüentes. Ou seja, os mais admirados.


Quando Margaret Tatcher, ante a avalanche de atos de vandalismo protagonizados pelos neonazis, declarou que ia "crucificar" todos os skinheads, a imagem de um skinhead pregado em uma cruz se converteu em uma das tatuagens mais solicitadas em Londres, e logo se transformaria em um símbolo universal que encontrei estampado em camisetas, chaveiros, pôsteres, e tatuado na pele de milhares de camaradas skins de todo o mundo.

Provavelmente, elementos tão blasfemos como a imagem do Cristo skin ou, o que é o mesmo, tão transgressores dos bons costumes e dos símbolos mais sacrosantos do sistema, fascinaram milhares de adolescentes. Embriagados com a força profanadora e radical daquele movimento, que se atrevia a enfrentar todos os representantes do Estado, as fileiras dos cabeças raspadas continuaram crescendo dia a dia.


Sua aparência, por outro lado, procurava potencializar essa imagem de dureza e violência, evoluindo até constituir um autêntico uniforme. Das calças Sta. Prest ou jeans Levis com a bainha dobrada para fora, camisetas e pólos Fred Perry e Lonsdale e suspensórios - herdadas dos mods -, a estética evoluiu durante os 80 para um aspecto mais paramilitar: jaquetas de aviador de bombardeiros ou Harrington, calças de combate e botas escuras Doc Martens, de bico de aço com cordões brancos (que podiam simbolizar a supremacia do branco sobre o negro). Também se mostram bem características suas abundantes tatuagens por todo o corpo (rostos de Hitler ou Rudolf Hess, runas, cruzes gramadas, suásticas etc.). E cetamente, a cabeça raspada a zero ou um.

Naturalmente, estou me referindo à estética do movimento skinhead-NS.. Mas é preciso dizer que há todo um código secreto entre as diferentes ramificações do submundo skinhead. Como uma linguagem em que cada elemento estético encerra um significado.

..sobretudo no início do movimento, detalhes como a cor dos cadarços se mostravam fundamentais. os cadarços brancos eram utilizados pelos skins-NS e WP, simbolizando a supremacia da raça branca sobre a negra. Os vermelhos também simbolizavam o orgulho branco e eram utilizados pelos membros da Frente Nacional Britânica e pelos fascistas.. e em algumas ocasiões pelos redskins. Os cadarços negros eram dos SHARP. Os verdes, dos SxE-skins. Os amarelos, dos anarco-skins e mestiços. Os rosados, dos homo-skins etc.

O mesmo acontecia com as jaquetas bomber. As negras eram usadas normalmente pelos homens, enquanto as vermelhas, pelas chelseas, as azuis pelos Sxe etc. Cabe registrar que essas jaquetas costumavam ser laranja por dentro e negras, azuis ou verdes na parte externa. Esse detalhe tem sido utilizado em muitas ocasiões por grupos skins rivais, um dos bandos usando as jaquetas pelo avesso, deixando assim a cor laranja para fora como sinal de provocação ao inimigo.

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Fonte: Diário de um skinhead: Um infiltrado no movimento neonazista - Antonio Salas; tradução Magda Lopes. - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006. Pág. 30 - 36.

E neste vídeo o brasileiro David Vega comenta sobre seu livro "Cadarços brancos":


Neste blog tem mais infos sobre esse livro: http://celtiberosedicoes.blogspot.com/