domingo, 28 de agosto de 2011

Essa hierarquia militar..

Serve pra pensar a situação delicada dos trabalhadores que votaram pela paralização em caso de demissões e imediatamente depois veem, por um lado, quatro camaradas sendo pedagogicamente demitidos e, por outro, um sindicato que nada faz justemanete quando dele mais se espera o apoio, a segurança e a iniciativa:

"Os britadores receberam essas palavras com um surdo murmúrio de descontentamento. Só a força da hierarquia, essa hierarquia militar que, do trabalhador menor ao capataz da mina, curvava a todos, uns por baixo dos outros, os retinha."

Germinal - Emile Zola - 1ª Edição - Editora Abril, Rio de Janeiro - 1972. Pág. 61

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Negras tormentas - Curitiba, Floripa e Porto Alegre

140 Anos da Comuna de Paris: debate de lançamento do livro "Negras Tormentas", de Alexandre Samis, em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre

Aproveitando o lançamento do livro "Negras Tormentas: o Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris", de Alexandre Samis, o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), Círculo de Estudos Libertários e Coletivo Quebrando Muros (Curitiba), Coletivo Anarquista Bandeira Negra
(Florianópolis) e Federação Anarquista Gaúcha (FAG), promovem um tour de lançamento do livro, com debate com o autor nas cidades de Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Na sexta-feira, 26 de Agosto, a atividade acontece em Curitiba, na Reitoria da UFPR (R. Amintas de Barros - Centro - Prédio Pedro II - Anfiteatro 900), das 17h às 19h.

No sábado, dia 27, é a vez de Florianópolis. O evento contará com a apresentação do recém-criado Coletivo Anarquista Bandeira Negra e além do lançamento do livro de Alexandre Samis, haverá também o lançamento de "Além de Sindicatos e Partidos: Organização Política em Anton Pannekoek", de José Carlos Mendonça, publicado pela Editora Achiamé, com debate com ambos os autores. A atividade ocorrerá no Sindicato dos Bancários (R. Visconde de Ouro Preto, 308 - Centro), a partir das 17h.

Para fechar, na segunda-feira, dia 29, a partir das 18h30, ocorrerá o debate de lançamento do "Negras Tormentas" em Porto Alegre, no Ateneu Batalha da Várzea (Travessa dos Venezianos, 30 - Cidade Baixa).

Conforme colocado pelo professor Wallace dos Santos de Moraes na orelha do livro, a presente obra “deve ser saudada com uma grande festa, tanto pela comunidade acadêmica como pelos leitores em geral”. Ele continua: “O leitor do século XXI deve colocar três grandes questões sobre a Comuna de Paris: 1) Como foi possível realizá-la? 2) Como foi seu desenvolvimento? 3) Qual foi seu legado? A obra de Samis trata dessas questões de forma magistral, respondendo-as sempre no plural, isto é, chamando a atenção para os diversos fatores que influenciaram na possibilidade, na necessidade e nos resultados da eclosão da Comuna. Para além disso, aquele que se debruçar sobre a obra terá a oportunidade de conhecer a gênese desse episódio nos seus aspectos mais longínquos. Com efeito, o leitor é presenteado com o conhecimento da história política e social francesa do século XIX por meio da narrativa dos fatos, e também conhece o rico debate entre seus intérpretes. Ademais, a história da Associação Internacional dos Trabalhadores e o grande debate entre anarquistas, marxistas e outras correntes políticas são passados em revista. A partir destas discussões, a Comuna de Paris é inserida em seu contexto. É esse o grande mérito do autor, diferenciando-se de outros que a tratam por si mesma, como se tivesse nascido do nada. No livro de Samis, a eclosão da Comuna é vista como resultado de todo um acúmulo de lutas e questões sociopolíticas que estavam na ordem do dia na Europa no século XIX. Assim, o autor, com propriedade — apropriando-se do conceito de autoinstituição de Castoriadis –, nega que a Comuna tenha sido a última revolução plebeia e também a primeira revolução proletária. Ela é posta no seu devido lugar: como evento autônomo e coberto de idiossincrasias. Para o bem do leitor e da teoria, trata-se de uma pesquisa que discute muito mais do que aquilo que se propõe — e que é ainda mais abrilhantada pelo prefácio de René Berthier, francês e estudioso do tema.” Publicado nesse ano que marca os 140 anos da Comuna de Paris, Negras tormentas, “o livro, hoje”, considera Moraes, “é a principal referência sobre o estudo da Comuna de Paris já publicado no país”.

Alexandre Samis é Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e professor do Colégio Pedro II. É militante da Federação Anarquista do Rio de Janeiro e diretor do SINDSCOPE. Autor dos livros “Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil” (Imaginário/Achaimé, 2002) e “Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, o anarquismo e o sindicalismo revolucionário em dois mundos” (Letra Livre, 2009).

A miséria do bom senso

Na terra das contradições, a nova polêmica é a possível demissão dos cobradores do transporte coletivo de Londrina. A prefeitura e a empresa assumem publicamente que nenhum trabalhador será demitido até que um estudo de viabilidade seja concluído. Dias depois, quatro são mandados embora sem motivos aparentes. O sindicato ameaça greve, os movimentos sociais pressionam e, na mídia, a população crítica. Muitos profissionais da imprensa saem em defesa do direito empresarial de demitir e contratar seus funcionários caso não cumpram com as expectativas. Jarbas Ajota, um dos quatro demitidos, diz entretanto que sempre foi um bom funcionário, que gostava de exercer a profissão e que foi “apunhalado pelas costas”. Acidentes não esclarecidos acontecem: uma senhora é hospitalizada, um ciclista atropelado, um motorista sofre um infarto. O Sinttrol, que ameaçava greve, após um final de semana se cala e não age efetivamente pela readmissão dos trabalhadores. O antigo movimento pelo Passe Livre ressurge das cinzas em um ato público com cerca de 50 participantes pela readmissão e redução da tarifa que foi alterada duas vezes no mesmo ano, contrariando uma lei federal. No calor dos acontecimentos todos querem opinar. Alguns sugerem que a realocação dos cobradores para outras funções cortará custos. A discussão técnica pode começar a qualquer momento: gráficos para lá, tabelas para cá, percentuais e nós franziremos a testa para tentar entender alguma coisa disso tudo. Nessa turbulência, solicitamos apenas que não se esqueça do que é evidente. O transporte coletivo é uma concessão pública, um direito de todos. Por este motivo, deve prezar pelo amplo acesso e pela qualidade no atendimento. Quem vivencia o ônibus diariamente dá a dica: a função do cobrador é importante. Sem ele o motorista fica sob pressão e coloca os usuários em risco. Se condutores de carro são proibídos de dirigir ao celular, por qual motivo dirigir um ônibus, controlar o troco, o trânsito de passageiros e cumprir os horários seria mais fácil? As interrogações e incertezas continuam, o sindicato não se posiciona claramente, a prefeitura faz de conta que não é com ela e a empresa demite e desconvesa. O assunto é controverso e a transparência na gestão pública parece não ter lugar. O que todos os londrinenses querem é algo simples, coragem, uma definição clara sobre o que acontecerá com esses profissionais. Antes que os protestos cresçam e coloquem estudantes, mais uma vez, em risco ou que uma greve, neste setor vital, acabe com a rotina da cidade.


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Tivemos hoje uma oficina de jornalismo impresso com a profa. Rosane da Silva Borges. Cheguei atrasado pois estava no ato contra o aumento e em uns mintuos parí este editorial acima, mesmo assim, acho que ficou digno de postar. Vejam aí o que acham.

Ah, e aqui tem o Link de uma entrevista sobre o movimento passe livre em Londrina na Rádio Brasil Sul.

sábado, 20 de agosto de 2011

Essas pessoas..

“Em meu carro, na manhã seguinte, eu dirigia devagar e de modo desatento, pensando como, no trabalho com as pessoas, esbarramos, de repente, com algumas que nos perturbam muito, apenas pelo seu jeito original de ser e reagir aos incidentes cotidianos, normais ou trágicos, incoseqüentes ou graves. Como se fossem exemplos de pessoas que nos faltava conhecer, para podermos identificar, no confronto com elas, o que realmente somos e queremos da vida.”


Roberto Freire - O momento culminante. Ed. Francis - São Paulo, 2003. Pág. 79
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Fonte da imagem: Paint the Future Fine Art Print - Andrew Judd

sábado, 13 de agosto de 2011

Amar a possibilidade de amar..

É preciso.

Como diria Roberto Freire, sentir amor é uma potencialidade vital, é produção criativa e, para amar, dependemos apenas de nós mesmos. Sua expressão e comunicação são produtos da liberdade pessoal e social conquistadas. Amar a possibilidade de amar, nesta perspectiva, é ser livre e viver criativamente, por mais ridículo que possa parecer.


Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem

Nunca se deve jurar
Não mais amar a ninguém
Não há quem possa evitar
De se apaixonar por alguém

Quem fala mal do amor
Não sabe a vida levar
Pois quem maldiz a própria dor
Tem amor mas não sabe amar

Noel Rosa

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quando não houver mais crédito no inferno..

..os bancos marcharão sobre a terra

"O que era um Banco? Para que servia um banco? Por que era assim tão importante um banco, para um homem entrar lá aos quinze anos, ser aposentado aos cinquenta e achar que o mundo todo é um banco cercado de desemprego por todos os lados?"

Roberto Freire - Cleo e Daniel. Ed. Círculo do Livro - São Paulo, 1991. Pág. 126

Link da imagem: Dublin Opinion

domingo, 7 de agosto de 2011

Estamos todos loucos


"Lembra-se de Beatriz? Fui visitá-la no hospício. Não me reconheceu. Você não sentiu a mesma coisa ao me ver pela última vez? Pois foi também o que senti ao ver você. Estamos todos loucos, Alemão. Loucos e fodidos! A alienação tem muitos caminhos. Mas a mental é menos importante e grave que a vital. Não foi nossa mente que ficou louca, mas nossa vida, compreende? E permanecendo intacto o pensamento, julgamos, criticamos, analisamos e sintetizamos essa incapacidade de ser, estar, sentir, querer e fazer. E para que isso? Que merda fedida, hem, Alemão?"

Roberto Freire - Cleo e Daniel. Ed. Círculo do Livro - São Paulo, 1991. Pág. 80

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Por ser lugar comum..

Deixamos de extravasar, de expressar..

Só essa frase já vale essa bela canção do Biquini Cavadão, Quando eu te encontrar:



Eu já sei o que meus olhos vão querer
Quando eu te encontrar
Impedidos de te ver
Vão querer chorar
Um riso incontido
Perdido em algum lugar
Felicidade que transborda
Parece não querer parar
Não quer parar
Não vai parar

Eu já sei o que meus lábios vão querer
Quando eu te encontrar
Molhados de prazer
Vão querer beijar
E o que na vida não se cansa
De se apresentar
Por ser lugar comum
Deixamos de extravasar, de demonstrar

Nunca me disseram o que devo fazer
Quando a saudade acorda
A beleza que faz sofrer
Nunca me disseram como devo proceder
Chorar, beijar, te abraçar, é isso que quero fazer
É isso que quero dizer

Eu já sei o que meus braços vão querer
Quando eu te encontrar
Na forma de um "C"
Vão te abraçar
Um abraço apertado
Pra você não escapar
Se você foge me faz crer
Que o mundo pode acabar, vai acabar

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O mito do Andrógino

mito do bissexuado, HermafroditoHermes Vênus
Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino.
Se deus é menino e menina, sou masculino e feminino.
(Baby Consuelo e Pepeu Gomes)

Do grego andrós (macho) + gyné (fêmea), o andrógino é o ser que reúne dentro de si o elemento feminino e masculino. O étimo latino da palavra “sexo” é o radical sec, do verbo secare (separar, cortar): o ato sexual junta o que está dividido em dois pedaços. O poeta Ovídio, em suas Metamorfoses, chama o andrógino de “Hermafrodito”, juntando o nome de Hermes (Mercúrio) e Afrodite (Vênus). Conta a lenda que a ninfa Salmácida se apaixonou perdidamente pelo Hermafrodito, conseguindo dos deuses o privilégio de nunca mais se separar do amado, constituindo assim um ser da natureza dupla, contendo o princípio masculino e feminino.

 Imagem: Navez - 1928 - matters-arising.blogspot.com.br

Os mitos sobre a androginia encontram-se espalhados em toda a cultura ocidental e nas religiões orientais. Segundo alguns exegetas da Bíblia, Adão e Eva, antes do pecado original, constituíam um único ser, sendo uma combinação harmoniosa do masculino e do feminino. Platão também pensara numa androginia primordial quando expôs sua teoria cosmogônica, centrada num Ovo ou Gigante antropomórfico, como origem do universo. Neste ovo gigantesco não existiriam os contrários: nem luz nem trevas, nem amor nem ódio, nem quente nem frio. O filósofo neoplatônico Leão Hebreu, no famoso livro Diálogos do Amor , publicado em 1536, sustenta a tese de que, em face das contradições existentes na narrativa bíblica sobre a criação do homem, é possível pensar numa interpretação esotérica: Deus teria criado, primeiro, o andrógino, o ser perfeito, bissexuado; depois, como punição pelo pecado de orgulho, teria havido a separação dos sexos, que causou ao ser humano sofrimento e morte. Esta vertente do mito bíblico tem um paralelo com o mito grego do ser bissexuado: Júpiter, o pai dos deuses, temendo que o Andrógino, por somar o princípio masculino com o feminino, pudesse ser uma ameaça para o seu poder, ordenou a Vulcano que, com um machado, cortasse seu corpo pelo meio, dividindo o masculino do feminino. Essa seria a explicação mítica da realidade psicológica da busca incessante da outra metade: o desejo do homem pela mulher, e vice-versa, visa reconstituir a primitiva unidade perdida.

Na cultura grega, o mito do andrógino está ligado às lendas sobre as Divindades Primordiais, à pré-história, por assim dizer, dos deuses do Olimpo (Mitologia). O poeta Hesíodo, na sua Teogonia, narra que a Terra, princípio cósmico original, único e andrógino, dá à luz, por partenogênese, a um filho, que é o seu oposto, o Ceú (Urano). A separação do princípio feminino (a Terra) do princípio masculino (o Céu) cria uma instabilidade cósmica, pois os dois sexos separados se desejam mutuamente, tentando restabelecer a primitiva unidade. A mãe Terra casa-se, então, com o filho Céu. Dessa união incestuosa nascem vários filhos, os Titãs, os Ciclopes e os Hecatônquiros, todas divindades poderosas. O Céu começa a sofrer da rivalidade dos filhos e ordena que a mãe Terra sufoque os novos seres ao nascerem. O infanticídio vem sendo consumado contra a vontade da Terra, que se vinga de Urano, instigando e ajudando o filho Cronos (Saturno, o Tempo), o mais jovem dos Titãs, a revoltar-se contra o pai. Traiçoeiramente, Cronos, armado de uma enorme foice, mutila o pai Céu, cortando-lhe os órgãos genitais. Em seguida, ocupa o lugar do pai no trono do universo, dando origem ao reinado do Tempo, até que seu filho Júpiter o destrone pelo mesmo motivo pelo qual Saturno tinha deposto Urano. A foice, instrumento agrícola, simboliza a luta da Terra, princípio feminino, protetor da vida, contra a tirania das forças superiores do Céu. No plano humano, a foice continua sendo o emblema da força dos trabalhadores, em constante luta contra os senhores das terras (questão agráriaAgricultura).

A separação Terra/Céu é a representação mítica da estrutura psicológica do eu/tu que, com o nascimento do filho, se completa na estrutura triádica, própria de qualquer sociedade humana: eu (mãe), tu (pai), ele (filho). A relação de conflito entre esses três elementos é a causa de crimes horríveis, como o infanticídio (o “tu” vê no “ele” um rival e tenta eliminá-lo), a castração e o parricídio (o “ele” mutila ou elimina o tu”) e o incesto (o “ele” substitui o tu no sentimento amoroso do “eu”). Assim, o mito sobre as Divindades Primordiais, inventado pela genialidade da mente grega para explicar as origens do universo, além de ser teogônico e cosmogônico, chega a ser também antropogônico e antropológico, como aparece em várias obras de arte, especialmente no mito de Édipo, transformado em tragédia por Sófocles e em complexo por Freud. O mito do andrógino simboliza a luta entre o corpo e a alma, verdadeiros irmãos inimigos, que pode ser encontrada em todo casal, condenado a viver em estado de guerra permanente.

O mito do andrógino é revivido em todas as formas de arte, ressaltando ora o pecado do orgulho, ora a auto-suficiência afetiva, que leva à assexualidade, ora a tentativa de explicar o distanciamento entre o homem e a mulher, a criatura e o criador, o tempo e a eternidade. Encontra-se, além de nas obras dos autores já citados, nas Metamorfoses de Ovídio, na poesia alegórica de Dante (Divina Comédia), no Orlando Furioso de Ariosto, no Adônis de Marino, no romance História cômica dos Estados e Impérios do Sol ,do escritor francês Savinien de Cyrano de Bergerac, no Tratado de Narciso, de André Gide, nos romances de Balzac, em À Procura do Tempo Perdido de Proust, no romance de Michel Tournier, Os Meteoros (1975), onde o narrador, referindo-se ao pensamento de Platão, diz que Zeus ameaçara os homens, já cortados em dois, a cortar mais ainda, se persistissem em seu orgulho: “Se a imprudência continuar, eu cortaria ainda em dois, de maneira a fazê-los andar com uma perna só”.

Um crítico e ficcionista contemporâneo, Dan Brown (O Código da Vinci), recorda que os antigos egípcios celebravam um ritual erótico para comemorar o poder reprodutivo da mulher. Cerimônia a que os gregos deram o nome de Hieros Gamos, em que o orgasmo era visto como uma oração. A concepção de sexo como pecado é bem posterior, quando as igrejas, todas elas, ao assumirem o poder político, começaram a incutir o sentimento depreciativo do sexo, associando-lo a inspirações demoníacas. A cópula do homem e da mulher, instinto divino, pois natural, e manifestação da mítica androginia, passa a ser permitida apenas para a conservação da espécie, condenando-se o prazer. Afirma Brown:

 “o uso do sexo pela humanidade para comungar diretamente com Deus representava uma séria ameaça à base de poder católica. Aquilo deixava a Igreja de fora, debilitando o status que ela mesma se atribuíra de único caminho para Deus. Por motivos óbvios, a Igreja fez de tudo para demonizar o sexo e reinterpretá-lo como um ato pecaminoso e repulsivo. Outras religiões importantes fizeram o mesmo”. 

Basta pensar em seitas evangélicas, que proíbem até a dança de salão para evitar a aproximação dos corpos de moças e rapazes, ou nas regiões muçulmanas onde se corta o clitóris das meninas para que não sintam o prazer sexual. Os antigos romanos, para enfraquecerem seus inimigos políticos, usavam o lema divide et impera: é preciso dividir para dominar. A religião faz a mesma coisa: separa o masculino do feminino para ter domínio sobre a humanidade.
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Gilberto Gil - Super Homem a canção
 

Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada
Minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender
Oh! mãe quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe
O super­homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher

Quem sabe
O super­homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher