sexta-feira, 22 de abril de 2011

Não pisque: Os fotógrafos da praça em Londrina

Na cidade a profissão popularmente conhecida como “lambe-lambe” teve seu auge na década de 60 e hoje se encontra em via de extinção


Na “praça da bandeira”, ao lado da Catedral no centro de Londrina, uma cena pode parecer estranha: Um caixote de madeira apoiado em uma estrutura simples, forrado de retratos, um chapéu preto, dois baldes e um cavalinho enfeitado em cor laranja. O que será? Por alí também se vê um senhor que caminha com dificuldade, traje social, cabelos brancos, barba aparada, pela simpatia deve ter lá os seus 65 anos de vida bem vivida.

Trata-se do último entre os “lambe-lambe” que ainda está em atuação em Londrina. Por mais que hoje a profissão pareça estranha ela já foi lucrativa e importante. Talvez por isso a morte de Luiz Juliani, filho de José Juliani, foi noticiada com destaque no dia 17 de março como símbolo do fim de um ciclo que começou nos anos 30. A fotografia Lambe-lambe foi a primeira a permitir a ampliação instantânea da fotografia. O equipamento era praticamente um estúdio fotográfico móvel, continha os materiais necessários à captura da imagem e os químicos para revelação. E é um pouco desta história que vamos conhecer aqui.

Messias Bezerra: Hoje ele usa uma máquina digital colorida porém mantém a tradicional "máquina-caixote" por questões históricas.

Um pouco de história

Foto de José Juliani em 1935 mostra uma passeata em homenagem ao então prefeito Willie Davis*

Para compreender a importância dos velhos fotógrafos, é preciso imaginar um período em que muitas pessoas passavam a vida sem um registro de si próprias em imagem. Se existisse, na maioria das vezes, era uma lembrança do casamento com todos os familiares e convidados. Tantas eram as cabeças que alguns encontravam difículdade em reconhecer depois cada uma delas, era um exercício dialógico entre a imagem material e a recordação dos que viveram a fotografia.

Em Londrina isso começa a mudar com a campanha publicitária da Companhia de Terras Norte do Paraná. Não bastou lotear as grandes propriedades da colônia e criar uma infraestrutura básica, foi preciso convencer os imigrantes que esta era a uma terra produtiva. Com o sucesso da divulgação, chega a Londrina o primeiro fotógrafo.

O pioneiro

José Juliani foi o primeiro fotógrafo residente na cidade. Entretanto, conforme relata o pesquisador da Universidade Estadual de Londrina Paulo César Boni, em 1933, quem estava aqui pensava apenas em sobreviver. A fotografia não era uma prioridade.

Por este motivo, só entre 1933 e 34 a sorte e o saber fotográfico falaram a favor do pioneiro. Os fotógrafos da companhia de terras vinham de outras cidades. José Juliani é convidado devido a ausência de um destes fotógrafos e a urgência em mandar a imagem para Londres, ela serviria de escala para a construção de uma turbina hidrelétrica. Com o excelente resultado obtido ele passa a ser o fotógrafo oficial e busca divulgar tudo o que mostrasse as qualidades da região.

Ainda assim, o pesquisador e produtor do documentário “José Juliani, o fotógrafo documentador das transformações sociais e urbanas de Londrina”, Paulo Henrique Silveira, relata que, como amante da fotografia, Juliani jamais deixou de fotografar por conta em seu estúdio e em eventos. Com o crescimento populacional a fotografia passa cada vez mais a fazer parte do dia-a-dia do povo londrinense.

Fotos que José Juliani fez de suas filhas*

Em 1965 seu estúdio torna-se defasado em relação aos demais e por não gostar de artificialidades constrói e instala uma máquina instantânea, a popular “lambe-lambe”, em frente a biblioteca municipal. Em seguida passa esse ponto ao seu filho Luis Juliani e cria outro na praça Marechal Floriano Peixoto, ao lado da Catedral. Alí permaneceu por muitos anos.

Década de 60: José Juliani eternizado por Haruo Ohara na praça Marechal Floriano Peixoto*

A época de ouro

Com histórias como essa, o ofício se tornou valorizado. Quando José Juliani chegou à praça já haviam outros fotógrafos. No ápice, de acordo com o último “lambe-lambe” em atividade, Messias Bezerra: “estavamos em 16 fotógrafos”. Mesmo assim não havia competição: “tinha domingo que chegava a fazer fila de 70, 80 pessoas para tirar foto. Eu não dava conta e indicava outro fotógrafo. Agente fazia muito isso e todo mundo tinha trabalho”. Ele confirma que nesta época a profissão foi muito lucrativa: “não dava nem tempo de tomar água ou ir no banheiro”.

Para o pesquisador Marcelo Franco, em estudo apresentado na Universidae Federal de Minas Gerais, essa “época de ouro” se deu pois o estado passou a exigir a foto para a confecção de vários documentos como carteira profissional, título de eleitor e identidade. E também pela capacidade única que os fotógrafos de jardim, como também eram chamados, tinham de produzir e entregar as fotografias instantâneamente. No início, quando se usava a chapa de vidro para capturar imagens esse instantâneo, em preto e branco, significava cerca de 20 minutos.

Seu Messias, como é conhecido, relata também que os postais faziam muito sucesso. Muitos vinham de regiões afastadas para o centro e queriam uma recordação, muitos estavam pela primeira vez diante de uma máquina fotográfica.

As duas quedas

De acordo com Bezerra houveram duas grandes baixas na profissão. A primeira foi por volta de 1986 quando chegaram a Londrina as máquinas Polaroids. O equipamento portátil possuia um filme colorido que era projetado para fora da máquina logo após a captura, desse modo, a fotografia instantânea se tornou mais acessível.

A segunda grande queda, foi a introdução da fotografia digital. Ficou mais difícil encontrar material para a fotografia com filme ou chapa de vidro. E a elevação do custo fazia praticamente impossível competir com os estúdios digitais. Além disso, seu Messias lembra que “ninguém mais queria a foto em preto e branco, passaram a querer a colorida”.

Por esses motivos, ele passou a fotografar em cores com uma máquina de filmes e usava o caixote apenas para cortar o negativo. Agora adotou a digital e disse que mantém o caixote pela questão histórica. Ao ser questionado porque ainda está na praça, responde meio sem jeito, meio apaixonado: “não sei fazer outra coisa, por isso sou lambe-lambe, agente pega gosto pelo que faz”.

Crianças ainda se encantam com a obra de Messias Bezerra. Manter a velha profissão requer boa dose de amor e criatividade

Mas bastaram alguns minutos de conversa para descobrir sabe muito mais. Prova disso são os cavalos de madeira. Ele os criou para atrair clientes mas logo os colocou venda. Hoje, podem ser comprados por R$150 e complementa: “também faço boi, jacaré, já fiz até um carrinho de algodão doce”. E em sua casa conserta máquinas fotográficas antigas e tripés. Diz ter aprendido tudo sozinho e com o auxílio dos amigos na praça.

Além disso, é convidado para participar de eventos, se dirige até o local com trage de época e, com sua “lambe-lambe”, produz e entrega as fotos na hora. Também já participou duas vezes da Bienal de Artes na capital a convite da prefeitura de Curitiba.

Célio Costa explica que se hoje a foto colorida e digital domina o mercado, o preto e branco é mais usado como parte de processos artísticos

O pesquisador da Universidade Estadual Célio Costa explica que “as pessoas se reúnem em volta dele para bater um papo sobre outras coisas, eles não falam só de fotografia, falam de política e outros assuntos. Todos conhecem o seu Messias alí e assim ele agrega pessoas e difunde conhecimento”. De certo modo, ele hoje é mais do que um fotógrafo, É um retrato vivo desse ofício em extinção.

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Esta matéria foi publicada na primeira edição da revista Super Nova.

* Capturas feitas na mostra "“Expressão visual de um autodidata: José Juliani, o colono-fotógrafo" que permanece até abril no Museu Histórico de Londrina.

Referências:
Monografia: "Profissões em Extinção: O Caso do Fotógrafo Lambe-Lambe" por Marcelo Horta Messias Franco
Artigo da revista Discursos Fotográfico: O fotógrafo da praça e a praça do fotógrafo por Célio dos Santos Costa, José de Arimathéia Cordeiro Custódio
Documentário: “José Juliani, o fotógrafo documentador das transformações sociais e urbanas de Londrina” por Paulo Henrique Silveira

Para a produção também foi realizada uma visita ao museu histórico de Londrine e entrevistas com Célio Costa, Messias Bezerra e Paulo Henrique Silveira.

Mais algumas fotografias desta série podem ser vistas em minha galeria no Flickr

6 comentários:

cabelo disse...

Opa!
Pô, seu blog é muito bom!
Vou passar mais vezes!

Abração!
;)

Lucas disse...

eba, valeu, o seu já tá aqui nos links da direita. []´s!

V.H. de A. Barbosa disse...

Putz, eu sinto uma tristeza enorme quando eu passo ao lado desse fotógrafo do cavalinho.

É como se ninguém o notasse, é como se a cidade tivesse tornado ele uma figura patética e anacrônica.

Já me peguei pensando na ideia de ter filhos para colocá-los lá sobre aquele cavalinho e dar um pouco de trabalho para o homem.

Boa matéria, abraços.

Lucas disse...

é vinicius, poucos o notam, geralmente as pessoas mais simples. Mas nem precisa ir tão longe, passe lá e troque uma idéia com o messias, ele vai ficar bem feliz : ). valeu, []´s!

Anderson Menezes disse...

sou de são paulo nem sei se esse blog ainda exite kk gostaria de saber como faço pra compra o cavalinho dele por interesse profissional meu alguem pode me ajudar?

Unknown disse...

Oi Anderson, acho que você vai conseguir comprar o cavalinho dele apenas pessoalmente lá em Londrina.