quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A tortura como remédio..

Há sempre duas versões..
a oficial e a real.

A tortura e as ditaduras na América Latina foram justificadas como uma espécie de remédio para curar as doenças sociais de nosso povo, um tratamento de choque.
Essa linguagem, é claro, pertence ao mesmo construto intelectual que permitiu aos nazistas alegar que matando os elementos "doentes" da sociedade estavam curando o "corpo nacional". Conforme asserção do médico nazista Fritz Klein: "Quero preservar a vida. E por causa do respeito à vida humana, eu removeria o apêndice gangrenado de um corpo doente. Os judeus são o apêndice gangrenado no corpo da humanidade." O Khmer Vermelho usou essa mesma linguagem para justificar sua carnificina no Camboja: "O que está infectado deve ser cortado fora".

Crianças normais

Em nenhum outro lugar esses paralelos foram mais assustadores do que no tratamento dado pela junta militar às crianças, dentro de sua rede de centros de tortura. A Convenção das Nações Unidas sobre Genocídio declara que entre as práticas de genocídio condenadas se incluem aquela que "impõe medidas que visam a impedir os nascimentos dentro de um grupo" e a que "forçosamente transfere as crianças de um grupo para outro".

Um número estimado de cinco mil bebês nasceu dentro dos centros de tortura da Argentina, e todos eles foram imediatamento alistados no plano de reengenharia da sociedade e de crianção de uma nova linhagem de cidadãos-modelo. Após um breve período de cuidados, centenas de bebês foram vendidos ou dados para casais, muitos dos quais eram diretamente ligados à ditadura. As crianças foram educadas de acordo com os valores do capitalismo e da cristandade, considerados pela junta militar como "normais" e saudáveis, e jamais ficaram sabendo de sua origem, como declaram as Mães da Praça de Maio, que tem feito um trabalho cuidadoso na tentativa de seguir as pistas de dezenas dessas crianças. Os pais dos bebês, considerados muito doentes para serem salvos foram quase sempre assassinados nos campos prisionais. O roubo de bebês não foi resultado de excessos individuais, mas parte de uma operação organizada pelo Estado. Num dos casos levados a tribunal, um documento oficial do Departamento do Interior, datado de 1977, foi apresentado como evidência; era intitulado "Instruções sobre procedimentos a seguir com filhos menores e ativistas políticos ou sindicais quando seus pais forem presos ou desaparecerem".

Esse capítulo da história da Argentina tem algumas semelhanças assustadoras com o roubo de crianças indígenas nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália, onde elas foram mandadas para internatos, proibidas de falar sua língua nativa e submetidas a um "embranquecimento". Na Argentina dos anos 1970, uma lógica simular de superioridade estava claramente em curso, baseada não na raça, mas nas crenças políticas, na cultura e na classe.

...da mesma forma como outras conquistas capitalistas do passado foram construídas sobre os túmulos coletivos dos povos indígenas, o projeto da Escola de Chicago para a América Latina foi literalmente erguido sobre o segredo dos campos de tortura, nos quais milhares de pessoas que acreditavam num país diferente desapareceram.
A doutrina do Choque - Naomi Klein - Páginas 138 e 139

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Esse trecho me lembrou muito o filme "A história oficial" de Hector Babenco que recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Recomendo que assistam:

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