domingo, 12 de dezembro de 2010

Nós dois no quarto..

Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora a temperatura uiva, desenfreada, assustadora.

O cachorro está sentado em minha frente - e me olha direto nos olhos.

Eu também olho para os olhos dele.

Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo - mas eu o entendo.

Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.

A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas..

E fim!

Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?

Não! Não são um animal e um homem que se olham..

São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.

E em cada par de olhos, no animal e no homem, a vida assustada tenta se agarrar no outro.

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Via Folha de São Paulo, em um domingo qualquer (23/05/2010)
Texto de Ivan Turguêniev
Tradução de Rubens Figueredo
Ilustração de Marina Rheingants

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