sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Inside of Straight Edge



Finalmente concluí a legenda para esse documentário produzido pela National Geographic e narrado pelo vocalista da banda Sonic Youth: Thurston Moore.

Inside Straight Edge ( por dentro do Straight Edge) é um filme que procura explorar as várias facetas do movimento nos Estados Unidos. O Straight Edge defende o não consumo de qualquer tipo de drogas, como álcool ou tabaco. Nos Estados Unidos esse movimento também tem sido classificado como a mais nova gangue criminosa do país. Por isso o filme buscou responder a seguinte pergunta: Quão longe os Straight Edges estão dispostos a ir para defender seus princípios?


Você poderá baixar este filme em torrent pelo: Piratebay
E você poderá obter as legendas pelo: Open Subtitles

*Peço gentilmente para quem assistir que procure dar uma revisada e corrigir os possíveis erros na legenda pois não tive tempo para isso ainda.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A tortura como remédio..

Há sempre duas versões..
a oficial e a real.

A tortura e as ditaduras na América Latina foram justificadas como uma espécie de remédio para curar as doenças sociais de nosso povo, um tratamento de choque.
Essa linguagem, é claro, pertence ao mesmo construto intelectual que permitiu aos nazistas alegar que matando os elementos "doentes" da sociedade estavam curando o "corpo nacional". Conforme asserção do médico nazista Fritz Klein: "Quero preservar a vida. E por causa do respeito à vida humana, eu removeria o apêndice gangrenado de um corpo doente. Os judeus são o apêndice gangrenado no corpo da humanidade." O Khmer Vermelho usou essa mesma linguagem para justificar sua carnificina no Camboja: "O que está infectado deve ser cortado fora".

Crianças normais

Em nenhum outro lugar esses paralelos foram mais assustadores do que no tratamento dado pela junta militar às crianças, dentro de sua rede de centros de tortura. A Convenção das Nações Unidas sobre Genocídio declara que entre as práticas de genocídio condenadas se incluem aquela que "impõe medidas que visam a impedir os nascimentos dentro de um grupo" e a que "forçosamente transfere as crianças de um grupo para outro".

Um número estimado de cinco mil bebês nasceu dentro dos centros de tortura da Argentina, e todos eles foram imediatamento alistados no plano de reengenharia da sociedade e de crianção de uma nova linhagem de cidadãos-modelo. Após um breve período de cuidados, centenas de bebês foram vendidos ou dados para casais, muitos dos quais eram diretamente ligados à ditadura. As crianças foram educadas de acordo com os valores do capitalismo e da cristandade, considerados pela junta militar como "normais" e saudáveis, e jamais ficaram sabendo de sua origem, como declaram as Mães da Praça de Maio, que tem feito um trabalho cuidadoso na tentativa de seguir as pistas de dezenas dessas crianças. Os pais dos bebês, considerados muito doentes para serem salvos foram quase sempre assassinados nos campos prisionais. O roubo de bebês não foi resultado de excessos individuais, mas parte de uma operação organizada pelo Estado. Num dos casos levados a tribunal, um documento oficial do Departamento do Interior, datado de 1977, foi apresentado como evidência; era intitulado "Instruções sobre procedimentos a seguir com filhos menores e ativistas políticos ou sindicais quando seus pais forem presos ou desaparecerem".

Esse capítulo da história da Argentina tem algumas semelhanças assustadoras com o roubo de crianças indígenas nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália, onde elas foram mandadas para internatos, proibidas de falar sua língua nativa e submetidas a um "embranquecimento". Na Argentina dos anos 1970, uma lógica simular de superioridade estava claramente em curso, baseada não na raça, mas nas crenças políticas, na cultura e na classe.

...da mesma forma como outras conquistas capitalistas do passado foram construídas sobre os túmulos coletivos dos povos indígenas, o projeto da Escola de Chicago para a América Latina foi literalmente erguido sobre o segredo dos campos de tortura, nos quais milhares de pessoas que acreditavam num país diferente desapareceram.
A doutrina do Choque - Naomi Klein - Páginas 138 e 139

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Esse trecho me lembrou muito o filme "A história oficial" de Hector Babenco que recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Recomendo que assistam:

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Do impossível..

"Esta, eu acredito, é a nossa função primordial: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las em evidência e acessíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente possível"
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Exercício de subversão:
Descobri esta frase por acaso, ela foi baseada na original escrita por um velho economista e pensador norte americano de direita e extremamente liberal muito famoso e influente: Milton Fried
dman. Aplicada em um novo contexto e trocando o termo "inevitável" por "possível" passa de liberal para uma expressão muito libertária, em minha humilde opinião. : )

A frase original pode ser encontrada na orelha do livro: A doutrina do choque, da Naomi Klein

domingo, 12 de dezembro de 2010

Nós dois no quarto..

Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora a temperatura uiva, desenfreada, assustadora.

O cachorro está sentado em minha frente - e me olha direto nos olhos.

Eu também olho para os olhos dele.

Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo - mas eu o entendo.

Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.

A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas..

E fim!

Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?

Não! Não são um animal e um homem que se olham..

São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.

E em cada par de olhos, no animal e no homem, a vida assustada tenta se agarrar no outro.

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Via Folha de São Paulo, em um domingo qualquer (23/05/2010)
Texto de Ivan Turguêniev
Tradução de Rubens Figueredo
Ilustração de Marina Rheingants

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os estatutos do homem

(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964.

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Thiago de Mello - Faz Escuro mas eu Canto, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro..