quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Flores


Ela disse, com todas as letras, não me amar e não querer me ver nunca mais.

Mas estou certo de que ao menor sinal ela virá correndo e o nosso amor se espalhará novamente, como o ar, preenchendo os espaços vazios com alegria e esperança. E sei disso não por ter certeza, mas somente porque as fantásticas engrenagens em minha cabeça me convenceram. Movidas a corações partidos ou ilusões executam uma dança frenética e me excitam uma dormência sutil em que os sonhos já não são mais invisíveis, se confundem e se sobrepõe à realidade. Assim desejamos. E sem perceber damos forma e passamos a acreditar em fantasias como se elas fossem tão naturais quanto o verde que brota da terra e a vida que espalha sobre ela.

Din-don.. Feliz, já superava a vergonha de ter comprado rosas, rosas! De tão ridículo que fui até as senhoras da praça Rocha riam de mim enquanto a névoa me envolvia e eu caminhava delirante ao apartamento dela. É. Ela é mesmo tão bela, é a poesia que restou em minha vida, se ela abre essa porta, ah se ela abre, já sei o que direi, conquisto-a novamente e não a deixarei escapar jamais. Acredite, eu tenho repulsa a idéia de prendê-la, escolheria perdê-la, e por isso media os verbos e lhe falava com uma ternura comedida. Aprendí que o amor é livre, que deve ser mútuo, desejado e conquistado por ambos sempre. Era esse o meu ideal, minha revolução cotidiana. Mas entender isso não significa que em meu âmago eu não quisesse amarrá-la. Ah como eu quero, não com correntes, com chantagens ou pressões de ordem psicológica. Quero atar os nós com os nossos olhos, com abraços ou até o canto do silêncio, com murmúrios, beijos, palavras soltas e todo esse conjunto de signos que parece sem sentido para os os miseráveis, os burgueses, os que nunca amaram alguém, os casados por interesse, comodismo ou convenção social, os que ainda não respiraram um amor livre.

Ela não respondeu o meu primeiro toque. Será que eu aperto novamente ou aguardo alguns minutos? Eu espero. Din-Don. Porcaria, eu repetí e agora, e se ela estiver ocupada? Serei paciente, ela está ocupada. Eu sei que fui bruto poderia ter ao menos avisado antes de usar essa campainha estúpida da forma que usei. Calma, ela está ocupada e irá abir apressada assim que me imaginar à porta. De repente brota um riso espontâneo em minha face: é tão bom estar aqui. Da última vez passamos 3 horas à beira do lago sem nada fazer, absolutamente. E é como se o conceito da perfeição que cresce naquilo que se faz fosse esmagado sem esforços pois o amor ali nada exigia, era tudo tão simples, tão belo e precioso.

Ela ainda não abriu, ela deve estar dormindo, eu vou tocar novamente, é isso, eu sei que é. Din-Don-Din-Don. Quem sabe assim ela acorda. Olho em volta, será que os vizinhos já notaram que estou aqui novamente? Será que eles fazem chacota de mim? E você está rindo do que? Eu agrido meu calcanhar direito contra o chão sem levantar a ponta do pé quinze vezes antes de decidir que vou embora. Meu corpo vai e volta como se um elástico enfraquecido e velho me prendesse às minhas aspirações. Bem, pode ser um sono profundo e os vizinhos que se danem, eu não vim aqui atoa. Faço o agudo alarme soar prolongado por mais quatro vezes. Se ela não despertar agora eu parto. É claro que eu vou, tenho muito mais coisas a fazer. Bom. Talvez ela não esteja em casa. Ela disse que estaria. São os últimos dias em que a Lu ficará na cidade. A Lú é sua melhor amiga. Podem ter saído isso é bem provável. Depois de tudo que me disse achei que ela iria esperar ansiosa a minha visita. Talvez ela esteja aí, bem aí atrás dessa porta e tenha até me observado aqui pelo olho mágico, quem sabe optou por testar meus sentimentos mais uma vez, como um gato que brinca alegre com sua presa agonizante até a morte. Vai ver me leu mais de uma vez e voltou para conferir se ainda estou aqui e qual é o conteúdo de meus olhos. Discretamente eu aceno com um sorriso para a porta, mostro as flores, a madeira permanece marrom inerte e sem cor diante de mim. Já basta. Isso é tudo eu não tolero mais humilhações. Prometo a mim mesmo que jamais ponho os pés em seu capacho. Jogo as flores pela janela, passo a mão sobre a roupa de cima para baixo rapidamente como se pudesse limpá-la, ela está limpa. Respiro fundo. O elevador sobe. Vazio. O elevador desce. Me sento. Merda! Eu devia ter guardado as flores.. Tudo prossegue e a noite cai anunciando que um novo dia, um novo amor quem sabe, terá que nascer.

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