sábado, 25 de outubro de 2008

A lei


Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei.

Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.

O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.

Vê-se bem que na intromissão da "curiosa" não houve nenhuma espécie de interesse subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma terrível situação.

Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.

Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei, os regulamentos, a polícia, os inquéritos, os peritos, a faculdade e berram: você é uma criminosa! você quis impedir que nascesse mais um homem para aborrecer-se com a vida!

Berram e levam a pobre mulher para os autos, para a justiça, para a chicana, para os depoimentos, para essa via-sacra da justiça, que talvez o próprio Cristo não percorresse com resignação.

A parteira, mulher humilde, temerosa das leis, que não conhecia, amedrontada com a prisão, onde nunca esperava parar, mata-se.

Reflitamos, agora; não é estúpida a lei que, para proteger uma vida provável, sacrifica duas? Sim, duas porque a outra procurou a morte para que a lei não lhe tirasse a filha. De que vale a lei?

Lima Barreto
Vida urbana, 07/01/1915

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Lima Barreto, além de escritor, jornalista, anarquista e incansável defensor da classe operária, sempre foi um grande pedagogo e crítico social. Seus escritos ainda hoje nos fazem pensar e entender a realidade. Viva Barreto! Eterno em nossos corações.

Um comentário:

V.H. de A. Barbosa disse...

Uma questão de moral. Sob o mesmo assunto milhões de opiniões poderiam ser emitidas, cada uma crucificando alguém. Mas como a criminalização de determinada conduta passa por um processo de valoração identificado pelo trabalho do legislador, então a concepção de certo e errado está totalmente vinculada à política e ao que deseja a sociedade. É só questão de, hum... "tomar o poder".

Mas sou suspeito para defender a lei.

haha, não sou burguês não, só estava brincando...porque, afinal de contas, me identifiquei com a descrição do blog: "em busca de uma maior harmonia que esbarram na rotina, ônibus lotado, stress, medo e empregos entediantes..". Ê TCGL...

Vou adicionar o link, abraços.

P.S.: legal o modo como funciona a república, na minha impera a regra do "quanto menos coisas dividirmos, melhor". Fala sério...